Era apenas um menino sentado sozinho, distraído com seus pensamentos, quando outro garoto se aproximou e lhe ofereceu uma garrafinha d’água. “Gostou?”. O menino sorriu, levantou o polegar e fez o gesto que, no mundo real, sempre significou um simples “sim”.
No entanto, no universo das telas, aquele polegar ganhou outro peso : o like. Um toque que aproxima sem aproximar, que conecta sem conexão. Ao clicar, um estranho transforma-se em “amigo”, uma foto ganha valor e um post comum vira moeda de troca.
A lógica é simples : quanto mais curtidas, mais seguidores. E quanto mais seguidores, mais chance de transformar cliques em dinheiro. A vida, então, passa a ser medida em números exorbitantes — visualizações, compartilhamentos, engajamento.
Só que ninguém pergunta : esse seguidor concorda mesmo comigo ? Ele se identifica com o que escrevi ? Ou clicou porque a dopamina piscou em seu cérebro, como acontece com chocolate, sexo ou drogas?
Na pandemia, quando a solidão tomou forma concreta, as redes se tornaram refúgio. O like virou abraço substituto, beijo virtual e elogio automático. Muitos encontraram afeto na palma da mão, no polegar para cima e no coraçãozinho vermelho, esquecendo-se de que conectividade não é conexão.
No entanto, persiste a expectativa : quem viu meu post ? Quem não curtiu ? Será que me ignoraram ? O silêncio digital dói mais que a ausência física.
O menino, que ergueu o polegar para a água, gostou de verdade. Já nas redes, um like pode não significar nada além de reflexo condicionado. Seguimos acumulando “amigos”, compartilhando memes, acreditando em fake news embaladas como verdades.
Vivemos uma era em que a adrenalina da curtida nos escraviza, repetindo o ritual do “quero mais”. As plataformas sabem : é um vício seguro e disponível 24 horas. Todos os dias.
E assim, o gesto simples de um garoto, sinalizando aprovação genuína, contrasta com milhões de cliques artificiais. Talvez a lição esteja aí : o verdadeiro like não se mede em números ou algoritmos, mas na genuinidade do olhar, na sinceridade da palavra, no abraço caloroso e na generosidade de um gesto realmente humano.
O sinal do polegar, nascido da experiência real, carrega autenticidade.
Já o botão das redes sociais, muitas vezes, revela apenas o vazio.

