“A solidão me acompanha desde a gestação”, repetia Ademir, como quem repete uma verdade biológica. Ainda envolto no líquido quente e espesso do útero, já se incomodava com os ruídos do lado de fora – buzinas, vozes, o tilintar das panelas.
Tinha a intuição de que não gostaria do que o esperava após o nascimento. Um mundo barulhento e confuso, cheio de gente tentando dizer coisas que ele não queria ouvir. Imaginava, por vezes, como seria ter um irmão gêmeo ali, dividindo o espaço apertado. “Não iria dar certo”, concluía, aliviado por estar só.
Seus pais, atentos àquela introspecção pouco comum, buscaram todos os caminhos: psicólogos, viagens, acampamentos, arte-terapia, escolas alternativas. Tentaram preencher aquilo que, para Ademir, era um buraco sem fundo. Mas ele apenas aceitava com gentileza e voltava para seu mundo particular, onde ninguém podia alcançá-lo. Com ou sem pessoas em sua volta, a sensação de vazio e desconexão tornou-se um hábito.
Ademir cresceu passando por todas as etapas que a sociedade espera : infância, adolescência, faculdade, trabalho. Mas sempre como quem cumpre tarefas sem entender o propósito. Festas em família o esgotavam e reuniões no trabalho o consumiam. Sentia-se desconectado, como se o mundo fosse um teatro no qual ele nunca soubera bem qual papel interpretar. Ficar sozinho doía menos, mas ainda doía. Com o tempo, acostumou-se com a dor surda de estar no mundo e aprendeu a apreciar o próprio silêncio. Fez da própria companhia um lugar habitável. “Chamam isso de solitude”, dizia, sem orgulho, sem lamento.
Aos trinta, seguiu o plano que amadurecera em silêncio: exilar-se. Escolheu um canto esquecido pela civilização, entre montanhas, matas, pedras e céu. Naquele pequeno casebre viveu como quis — sem relógio, sem vizinhos, sem vozes. Durante quarenta anos, foi apenas ele, o tempo e a natureza.
Uma década após sua morte, pesquisadores encontraram seu esqueleto. Ao lado, ossadas de pequenos animais, como se tivessem se aproximado dele em vida ou após. Talvez buscassem abrigo ou algo que também lhes faltava. Quem sabe, como Ademir, criaturas tocadas pela mesma e silenciosa solidão.

