Presenças

Quando eu era menino, falava como menino, apreciava (as coisas) como menino, discorria como menino”, diz a primeira epístola aos Coríntios.

A gente vai crescendo e acrescentando. Somamos experiências, amores, amigos. Alguns maravilhosos, outros nem tanto, mas tudo conta. Na matemática da vida, as vezes desejaríamos substituir pessoas ou situações, mas a verdade é que tudo aparece na conta final.

Dia desses estava arrumando uma parte da cozinha, aquela que é mais importante, onde moram os chás e as xícaras. Fui reunindo todos, muitos deles estavam espalhados por perto. Quando a mágica aconteceu, os vi juntinhos e lembrei de uma cena de anos.

Um amigo veio visitar e ofereci uma bandeja repleta:

– Escolhe o que tu queres, são todos ótimos.

Mirou um amontoado diferente, e perguntou de onde era.

– Do Marrocos, de menta. É fantástico!

– Mas por que se mexe ?

Olhei horrorizada, o chá, tão antigo, tinha criado vida. Ofereci um café.

Hoje olho a quantidade desproporcional, que só faz aumentar.

Lembrei da primeira memória, eu muito pequena, depois de um almoço que devia ter acontecido em um sábado, porque era o dia que nos encontrávamos. O sol entrava na sala, e ela perguntou:

– Meu amor, quer um cházinho?

Senti a importância do oferecimento, privilégio dos adultos: nunca vi outra criança tomando chá nem mesmo em uma xícara tão grande.

O cidró era colhido no quintal e o perfume, lembro até hoje.

Recordo também do olhar da vó, que além de muito açúcar, vinha cheio de cuidados:

– Devagar, está muito quente.

Se vou reunindo tantos sabores e recipientes diferentes, o que gostaria era esquecer minha idade. Retornar à criança que fui, para em uma tarde qualquer, reencontrar minha avó que voou com o cidró, e segue em outro lugar, oferecendo chá a todas as netas do mundo.

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