Amor Fati (ou: a vida encontra caminhos)

Foi difícil abrir a porta, porque a madeira inchou depois de muitos dias submersa. Depois do primeiro impacto, após ter percorrido as três peças, voltei à sala de espera. Retirei o quadro, que estava com a parte principal virada para o chão e coloquei na rua, em uma cadeira.

A água foi escorrendo devagar, e a imagem parecia o fundo de um brinquedo que eu adorava quando pequena,“Aquaplay”, ou algo parecido. Era uma gravura, da época da faculdade da mãe, em que alguns atores simulam uma consulta ao dentista na idade média. O relógio da sala principal estava parado às 10h10. Pelo que contam, acredito que tenha sido à noite, quando as pessoas próximas foram resgatadas dos telhados.

Uma vez assisti a uma peça de teatro que adorei, chamada “Vermelho”. Contava sobre a época em que surgiram os pintores expressionistas. O personagem explicou que depois da guerra resolveram pintar formas ao invés de figuras, por terem ficado sem imagens concretas para descrever acontecimentos daquele tamanho. O que existia até então não era suficiente para retratar a nova realidade. Inventaram outro jeito.

Quando entendemos que a mãe tinha perdido todo o consultório, lugar onde trabalhou muito feliz por quase 60 anos, eu e minha irmã imediatamente nos dispusemos a ajudar na reconstrução. Ela explicou que tinha que pensar bem, pois era um investimento alto. Não planejava trabalhar muitos anos mais e não tinha apego nenhum ao lugar, que não deveria existir somente pra ela dizer “tenho um consultório”.

É interessante conviver e olhar para o diferente. Porque eu, tendo apego a um pedaço de papel escrito com a letra da minha avó, certamente teria a um lugar ou a qualquer coisa que remetesse a uma memória feliz. E apesar de espírita, eu reconstruiria um consultório para dizer que “é meu”.

Fiquei pensando nos livros que acumulei durante anos, especialmente depois de um acontecimento que me deixou muito surpresa: que lugar pode ser mais seguro e perfeito que uma história, que tem começo, meio e fim ? Lembrei também de outras coisas que guardei, antes de ser para lembrar e relembrar, principalmente para ter certeza que aconteceram. O que os olhos não vem, o coração não sente ? E de que lembra o coração, ou melhor, do que precisa o coração para lembrar?

O amor fati indica amar o destino.

Fica a lembrança (sempre) de uma história bonita que o pai contava. Ele disse que nunca aprendeu tanto como professor como na época em que trabalhava na secretaria da escola. E o que se aprende na secretaria? Aprendia fazendo as matrículas. Era quando passava a entender a vida e as dificuldades de cada aluno. E quando ouviu de uma colega aconselhando uma mãe, após uma história em que não parecia haver solução: “A vida encontra caminhos…”

Seguimos unidas no desejo da mãe, e juntas chegamos para a limpeza e reconstrução. Quase como se estivéssemos em uma canoa, em um lugar inusitado, remando na mesma direção. Vivi coisas que não saberia contar.

O consultório ficou lindo e a mãe trabalha nele até hoje, com 81 anos.

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