A verdade é que a própria vida se encarrega de separar alguns irmãos.
Ainda pequenos, Pietro e Joan, moravam com os pais. A sorte não olhava pra eles. Os dias eram duros demais e a droga fácil que batia de porta em porta, afetou a todos. Havia mais três. O mais velho contava oito anos e a caçula, nove meses. Uma tarde bateu o Conselho Tutelar levando as crianças que já passavam fome. O pai e a mãe pareciam zumbis. Desciam e subiam aquele morro em busca de comida, em forma de pó, pra encher o cachimbo.
Os irmãos foram acolhidos na mesma casa e os pais não puderam visitá-los. A determinação era realizar tratamento para dependência química. Equação difícil de ser resolvida. Políticas públicas deficitárias e insuficientes, e poucas perspectivas de adesão. Prognóstico reservado para o futuro deste grupo. Sabe-se que manter cinco irmãos é assunto complexo e a família ampliada sem condições para assumir a guarda. A vida, no rito já institucionalizado, tomava outro rumo.
Pretendentes habilitados chegaram e, gradualmente, apresentaram novas rotinas e oportunidades àquelas crianças. Nem todos seguiram juntos. Na casa permaneceram ainda, Pietro e Joan. A confirmação do diagnóstico de transtorno de personalidade antissocial, dificultava a colocação do irmão. O vínculo entre eles era intenso e escancarada a proteção e o cuidado de Joan sobre Pietro, o mais novo. Ligação afetiva que teve raízes nos dias mais escuros, por ocasião do incêndio no barraco em que moravam. Cansaço e secura, fugindo da polícia e de outras forças – não legítimas – se escondendo embaixo de pontes e matos.
A escolha foi difícil. Talvez cruel. Separar a dupla era dar chances de uma nova vida ao outro. Cada um ganhou uma família. No início as visitas eram frequentes. Espaçaram-se com os anos até não se encontrarem mais. Durante uma viagem, um grave acidente de trânsito tirou a vida do pai e do filho. A mãe, transtornada com o profundo vazio surgido de um instante a outro, decidiu procurar a família que há anos não encontrava. Bem recebida, aproximou-se e sentiu no abraço apertado o acolhimento tão pretendido. Joan havia evoluído com o apoio permanente da equipe multidisciplinar, possível pelas condições socioeconômicas favoráveis dos pais, um casal homoafetivo apaixonado pelo menino.
Ela preenchia seus dias, contando histórias e descrevendo imagens dele agarrado junto ao Pietro quando pequenos. Joan manifestava contentamento durante as conversas e recordações de seu fiel companheiro na infância.
Faíscas de parcos momentos bons em que carregava, tipo canguru, seu inesquecível e querido irmão.

