Vertigem

Do alto do trigésimo quinto andar, Valdir olhou para baixo com a fronte apoiada na imensa janela de vidro. Perguntou-se por que fizera isso. Logo ele que possui acrofobia desde criança. Afastou-se da janela meio tonto, aquela sensação de mal-estar a qual já estava acostumado em situações assim. Vertigem.

Valdir é um ex-investigador da Polícia Civil que, aposentado aos 57 anos, se tornou detetive particular. Clichê. Mas paga as contas.

Esse é o quarto edifício de hoje. Não é o mais alto, mas talvez o mais antigo. Outra pergunta a si mesmo: por que diabos aceitou esse caso? Pedido de um antigo amigo, desconfiado da mulher, que implorou a Valdir para que seguisse seus passos pela cidade. Ele não queria aceitar a princípio. O amigo poderia descobrir o que estava evidente pelos relatos que fizera: uma traição conjugal. Como dar uma notícia dessas? Situação delicada.

Mas cedeu pela insistência do amigo e ex-parceiro da Polícia. Sua clientela também estava escassa e ele precisava do dinheiro.

Repassou mentalmente o caso: a mulher mantinha uma rotina intrigante, todo dia saía cedo de casa, tomava um taxi até o centro da cidade e começava uma maratona de entrar e sair de prédios altos – aparentemente aleatórios – sem nenhum propósito, apenas entrava e descia em alguns andares, mas não entrava nas salas. Retornava ao térreo e seguia para o próximo edifício. Estava bem difícil segui-la sem ser percebido, mas o experiente detetive tinha seus disfarces e conseguiu manter-se discreto. Percebeu que isso seria necessário a partir do segundo dia de investigação.

Após dez dias e incontáveis prédios, Valdir chegou à conclusão de que ela era louca. Que simplesmente ocupam seus dias com um estranho ritual, talvez para preencher sua vida monótona e infeliz. Não era o caso de entender os motivos, somente reportar ao contratante o que descobriu. Mas ao menos não tinha um amante, o que poderia ser uma boa notícia para o marido.

Decidiu segui-la uma última vez, antes de concluir o caso e relatar ao amigo seu veredito.

De seu carro à distância, observou minuciosamente a mulher enquanto ela esperava o táxi. Aproximadamente 47 anos, dentro dos padrões de beleza da sociedade, corpo esbelto, cabelos longos e castanhos, pele morena, olhar sedutor.

De repente, sentiu um nervosismo ao pensar que seria a última vez que a acompanharia, que poderia observá-la de longe. Como ficariam seus dias agora? Estava apaixonado e não tinha percebido.

Olhou novamente para a mulher, que acenou para ele de longe. Conduziu o carro devagar até ela.

– Oi, amor. Por que parou tão longe? Você sabe que ele não está em casa – disse a mulher, entrando no carro – Vamos? Qual prédio conheceremos hoje? Estou ansiosa..mais uma aventura com você!

– S-sim…também estou ansioso – disse ele, quase que como acordando de um sonho.

Valdir deu partida no carro refletindo mais uma vez sobre a história que contaria ao amigo em relação à sua mulher, a “louca”. E suspirou de alívio ao lembrar de quando fora contratado pelo marido de sua amante, seu ex-parceiro. Sentiu uma leve vertigem.

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