Bonequinhas

Um pouco do que restou. Ou na verdade nada restou de um tempo que ainda não conseguimos superar completamente. Dias escuros, molhados e tristes.

Roupas de bonequinhas, sujas de lama como o varal que as segura, como a grade e as paredes da casa, como a vida de seus moradores.

A vida foi coberta de agua, de lama. Foi difícil respirar, tamanha a umidade, já chorar foi fácil, pois a agua já estava presente e as lagrimas se misturaram a tudo isso.

A dor foi de todos, de quem perdeu, de quem estava seguro, de quem apenas assistiu.

Onde estão as bonequinhas? O que vai ser das roupas, das brincadeiras e das risadas sempre que a lembrança da lama aparecer? Sim, ela vai aparecer, pode adormecer as vezes, mas de vez em quando vai surgir.

Que cores elas tinham? A lama não deixa ver. Mas a lama não conseguiu apagar tudo. Antes dela, essa roupinhas tiveram vida, correram, pularam, dormiram. Sempre haverá lembranças de como foi antes, do cheiro de amaciante, da roupinha dobrada num guarda roupa que não existe mais.

Para as bonequinhas foi tudo tão incompreensível. Por que suas roupas, seus brinquedos, sua cama e seus sonhos foram cobertos pela lama?

São muitas explicações, muitas noticias sobre aquele tempo, mas continua sendo tudo ainda sem sentido e terrivelmente incrível.

Na mente de quem as pendurou ali, o que se passava? Esperança, dor, tristeza, recomeço? De tudo um pouco?

Talvez a vontade de recomeçar. Primeiro por juntas as roupinhas, que lembram que suas donas existem e que podem precisar delas. Conseguimos lavar, secar, escorrer tristeza com lama. É possível.

As bonequinhas ganharam novas roupas, essas já não servem no tamanho, não cabem na vida após tudo.

Ainda vão sentir medo quando o tempo fechar, quando a agua escorrer. Vai passar.

A felicidade de ser criança é ver graça em tudo, é achar diversão mesmo nas situações mais impossíveis e assim, aquele grande susto vai ficando pra trás

O sol demorou, mas surgiu e, a cada dia que passava, a esperança voltava, a alegria reaparecia. A agua baixava.

Hoje as casas foram pintadas com novas cores, as roupas lavadas e as crianças brincam novamente naquela mesma rua. A vida é assim, e tudo passa.

Que as bonequinhas tenham dias melhores. Dias claros, secos e alegres.

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