Antes do clique aquele olhar já estava ali, puro, cru, espontâneo e inocente.
Fiquei encantado. Por um instante, paralisado, esqueci da máquina pendurada em meu pescoço. Só conseguia admirar aquela imagem.
O guri de cabelos encaracolados, olhos claros e intensos, ao ver que eu estava com a câmera já foi me dando um “joinha” despretensioso.
Comecei a registrar várias e várias fotos, por múltiplos ângulos. Mas não conseguia me desvencilhar daquele olhar.
A criança estava se divertindo, sorrindo a cada flash.
Eu estava emocionado, aqueles vibrantes olhos claros estavam me envolvendo e me fazendo viajar.
Eles me levaram a um passado distante, que eu já havia esquecido. Quando minhas preocupações envolviam saber que horas iriam me levar na pracinha, em que momento minha mãe chegaria em casa e me pegaria no colo ou porque não me davam a bendita mamadeira no mesmo momento das minhas vontades.
Eram dias em que todo dia era bom, mesmo com os arranhões e machucados que sempre aconteciam.
Podíamos ser mocinhos e vilões no mesmo dia, tudo acontecia e terminava sem muita explicação, pra recomeçar no dia seguinte.
Era tão bom ser inocente e ingênuo. Não possuir malícia e até uma certa maldade que com o passar do tempo vai nos moldando. Dizem que se chama amadurecimento.
Para nós adultos, a frustração, o cansaço e a decepção doem bem mais que um joelhinho ralado que tivemos na infância.
O mundo se tornou muito mais real do que toda a imaginação que aqueles olhos ainda possuem em seu interior.
Aquele olhar me fez querer resgatar o melhor que ainda podia haver em mim.
Me pergunto se temos mesmo que deixar tudo que fomos quando crianças.
Por que esquecer da magia que nos faz acreditar que existe felicidade? Não dá pra viver, mesmo depois de descobrir que o mundo ficou mau?
Talvez seja possível, se não deixarmos que a maldade nos pareça normal.
“É que a gente quer crescer e quando cresce quer voltar do início”, diz uma música que gosto e que inspirou esses pensamentos. “Era uma vez”, de Kell Smith.
Verdade, queria ser aquele guri da foto nesse exato momento,
Guardei a máquina, agradeci à criança e mãe, que estava bem ao lado sentada, observando e parti. Os compromissos da vida adulta não vão esperar eu acordar.

