O maior medo de uma bola de brinquedo não é ser furada e perder sua utilidade. Nosso maior temor é existir e não cumprir nosso propósito – trazer alegria, diversão e sorrisos.
No início de minha vida, tristemente eu não exercia meu papel. Fui comprada por uma família abastada, onde eu nunca era escolhida para brincar com as crianças.
Morava no canto de um quarto grande, colorido, cheio de outros brinquedos (notei alguns bem caros, inclusive), mas solitário e silencioso a maioria das vezes.
Então, meu mundo girou pela primeira vez. Eu e mais alguns colegas menos importantes fomos colocados dentro de uma grande caixa. Foi uma enorme confusão, tudo rodopiava e caíamos uns por cima dos outros. Mas entendi que enfim sairíamos daquele quarto. Qual destino, não sabíamos.
Me lembro bem do primeiro contato com o Carlinhos, aquele garoto de olhos enigmáticos, cabelos longos, tez morena queimada pelo sol. Era Dia das Crianças e a festa estava animada no assentamento da Fazenda Annoni. Filas de crianças ansiosas, tanto para receber os brinquedos doados quanto para as guloseimas que também estavam sendo distribuídas.
Quando fui entregue ao menino, pude me enxergar em seus olhos arregalados e alegres. As mãos sujinhas me agarraram fortemente e ele saiu gritando e correndo para me exibir, orgulhoso, às outras crianças.
Dali em diante nos tornamos inseparáveis. Carlinhos estava sempre comigo, o melhor brinquedo que ele tinha. Ele adorava me compartilhar com todas as crianças do assentamento, às vezes até adultos também se divertiam comigo, a bola colorida do Carlinhos. À noite, depois de um dia inteiro rolando no chão de terra batida, ele me colocava carinhosamente ao lado da cama que dividia com mais três irmãos e adormecíamos, todos cansados, mas satisfeitos.
Meu novo quarto, que na verdade era a própria casa, não tinha assoalho e as frestas da parede de palha com o telhado de lona preta completavam o que para mim, era a morada mais feliz que já tivera, pois eu pertencia ao Carlinhos e estava cumprindo minha missão de vida.
O mundo girou pela segunda vez. Ouvi gritos, senti as paredes caindo ao meu lado, as crianças correndo, os adultos desesperados. Uma máquina amarela, enorme e barulhenta, que eu só tinha visto numa versão bem menor na casa anterior (um dos brinquedos caros), destruía tudo e ao mesmo tempo carregava o que via no caminho, inclusive eu.
A terra caía em cima de mim misturada com destroços de tudo que fazia parte da casa. O pesadelo durou uma eternidade. Sentia o cheiro de fumaça ao redor e ainda ouvia a gritaria que aos poucos foi sendo afastada e silenciada.
Fui levada a um lixão, próximo do assentamento. Minha nova casa era ao relento e eu não tinha mais cor nem a companhia de brinquedos ou crianças, apenas de milhares de coisas partidas e sem forma. E de urubus que insistiam em chafurdar o aglomerado que me cobria.
O mundo girou pela última vez. Uma pá carregadeira revirava o lixo velozmente de um lado para outro. Fiquei à vista, repleta de uma densa gosma fétida, quando senti a bicada forte de uma ave faminta. Antes de todo o ar me faltar, no meu último suspiro, pensei: Ora bolas, fiz Carlinhos sorrir.

