Travessias

Quando eu naveguei por ali com os árabes no século XIV, já os encontrei, com suas andanças de norte a sul, sul a norte, pastoreando seus rebanhos. O homem mais rico era o que tivesse mais gado, assim como era desde a Antiguidade com aqueles que não se fixavam a lugar.

Quando estive com os portugueses no século seguinte, continuavam por lá. Esses portugueses em busca de riquezas circundaram o sul da África e na costa oriental daquele continente foram construindo fortificações. Os portugueses se importaram pouco, incomodaram pouco, se acomodaram no litoral. Quase não importunaram o povo que pastoreava gado. 

Passaram-se os anos. Vi os ingleses tomarem conta do território ao norte e os alemães ao sul. Vi que esse povo nômade conseguiu resistir. Não militarmente. Eram guerreiros, mas não podiam fazer frente às armas dos colonizadores. Resistiram em sua fluidez. Como os tantos animais que habitavam a região do Serengueti. 

Testemunhei a Grande Guerra e a derrota dos alemães. Então todo o território se tornou súdito do Rei George V. Eles continuaram seguindo de norte a sul e de sul a norte, pastoreando seu gado, que lhe fornecia o alimento. O leite, o sangue, a carne. 

Passaram-se os anos. Veio a Segunda Grande Guerra. Vi os homens se matarem. E depois que a Segunda Grande Guerra acabou, vi o Império Britânico ruir aos poucos. Vi surgirem novos países. 

Para eles não importou. Continuam levando seus rebanhos para o norte e para o sul, para o sul e para o norte, indiferentes às fronteiras. 

Quando posso, estou com eles. Também me alimento com o leite, o sangue, a carne. 

Quem sou? Eu sou o início, o fim e o meio. (Meu nome? Gita. )

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