Contrastes

Dorothea Lange e Walker Evans foram dois destacados fotógrafos estadunidenses cuja obra correu mundo a partir da década de 1930. Os Estados Unidos já eram possivelmente a maior potência econômica do mundo, na sequência da então chamada de Grande Guerra. Mas em 1929 houve a quebra da Bolsa de Nova York, e, nos anos seguintes, a arenização / desertificação de regiões no sudeste do país. O crack da Bolsa resultou em uma recessão por excesso de produção e falta de demanda. A desertificação gerou fracasso de colheitas, fome e deslocamentos internos. As imagens produzidas por Lange e Evans, e por outros fotógrafos, ajudou o então recém eleito Presidente Franklin Roosevelt a justificar a intervenção do Governo Federal na economia, coisa que não era comum naquela época. As fotos se tornaram um registro do momento e uma espécie de arte. Acabaram editadas em livros ao longo do tempo. Imagens com grande contraste, feitas em preto e branco. 

As fotos, e depois as imagens em movimento, ajudaram a divulgar crises e catástrofes, e, às vezes, gerar mobilizações para alívio dos sofrimentos causados por essas crises. Podemos voltar à fome de Madras ainda no final do século XIX, na então Índia Britânica; passando pela Fome de Bengala, em 1943 também na Índia Britânica; a Guerra de Biafra, tentativa de secessão na Nigéria no final dos anos 1960; a fome na Etiópia, em meados dos anos 1980; a guerra civil na Somália, nos anos 1990; também guerra civil e intervenções estrangeiras no Iêmen desde uma década atrás; o massacre em Gaza ainda há pouco. Como se pode perceber, grande parte das fomes nesses últimos cento e tantos anos são decorrentes mais de guerras do que de perdas de safras. 

E as imagens são impactantes, para quem já não ficou anestesiado com a violência no mundo. Quando há tanta violência, o que podemos fazer é tentar ajudar como nos for possível, e buscar a beleza no mundo.

Esses tempos vi uma outra imagem. A foto, em preto e branco, com alto contraste entre luz e sombra, trevas e claridade,  me parece homenagear Rembrandt e Caravaggio. Lembrou-me as imagens de Lange e Evans. Contudo em seu centro há uma garotinha fazendo um joinha com a mão direita. Tem um sorriso contido. Está acompanhada por uma garrafa de água mineral. 

Fosse a foto colorida, seria, talvez, uma adorável uma imagem de publicidade.

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