Megalofobia

Porto Alegre, novembro de 2025

Cara Silvia,

Vi tua foto das Dolomitas. As montanhas são bem impressionantes. Talvez mais impressionante seja a escala da edificação que aparece junto a elas. Quer dizer, aparece. A gente tem que se fixar muito à foto para enxergar essa edificação. Alguém falou que as pessoas registradas na imagem parecem formigas. Para mim, parecem pequenos borrões. Pixels borrados na imagem digital. 

Tudo isso faz a gente pensar. O tamanho de uma formiga em relação a um ser humano. O tamanho de uma pessoa em relação a uma cadeia de montanhas. Uma cadeia de montanhas em relação ao planeta. A Terra em relação ao Sol. O Sistema Solar em relação à Via Láctea… Melhor parar por aqui. 

Afinal isso vai nos fazer pensar na nossa insignificância em relação ao que chamamos de Universo. 

Olhar a foto também me fez lembrar de quando eu era criança, e durante um verão na cidade de Rio Grande, um tio me levou a passear pela área do chamado Porto Velho. Neste caso Porto Velho é parte da região portuária da cidade, não a capital de Rondônia. Acho que escrevi no livro das crônicas de viagem sobre isso. Como os navios me impressionaram. Em especial como a criança que eu era se impressionou que naquele dia houvesse navios adernados. Os navios adernados me impressionaram ainda mais. Acho mesmo que me assustaram. Navios são objetos imensos. Penso isso hoje. Imagina quando eu tinha, sei lá, talvez onze anos. Ver navios grandes ainda hoje me impressiona. Às vezes injeta adrenalina na corrente sanguínea. Gera certa ansiedade. 

Só este ano eu descobri que isso tem um nome, megalofobia. Medo de objetos grandes, imensos. No meu caso em especial, de navios. Diante de um grande navio, emocionalmente me sinto insignificante. 

Já em relação a grandes elementos da natureza, não costumo me sentir ansioso. Pelo contrário. Fico embevecido, epifânico. Como se intuitivamente eu confirmasse que Deus existe. 

Tu vês. Tua foto me fez pensar muito. 

Grandeza, pequenez, insignificância. 

Lembranças. 

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