Estive recentemente na Tanzânia. Conheci suas savanas, suas florestas, seus animais. Tentei registrar suas cores e sua luz. Um sol vermelho por detrás das acácias compunham o quadro que lembra o filme “O Rei Leão”. Fiz belas fotos coloridas.
Lá conheci, também, uma comunidade Massai . Num país onde há em torno de 120 grupos étnicos (a maioria bantu) eles representam pouco mais de 5% da população. Eram um povo nômade, mas atualmente fixam-se em algumas aldeias. Mantém a característica de ser um povo de pastoreio, não cultivam a terra. Alguns vivem em comunidades afastadas, com seu hábitos quase primitivos. Outros vivem em aldeias próximas aos parques nacionais, onde trabalham como guias.
Em visita a uma aldeia afastada, fomos recebidos com sorrisos contidos e olhos que não pediam nada, apenas olhavam com curiosidade. As crianças apareceram com suas roupas coloridas, os adultos com pouca conversa, mas simpáticos. As casas eram de barro com uma porta e uma janela. As expressões eram espelhos de um tempo que não cabe em relógios — curiosidade, reserva, uma alegria que surge quando alguém arrisca o primeiro passo de uma brincadeira.
Foi então que a lembrança de Sebastião Salgado murmurou, como convite: quem sabe eu não possa, ao menos, me aproximar da forma que ele tem de ver o mundo? Comecei a ver aquele cenário em preto e branco.
Tentei, com a humildade de quem sabe que nenhuma imagem pode carregar o peso de uma vida inteira, imitá-lo na densidade de emoções. A tarefa, claro, era impossível na íntegra. Salgado parecia rastrear a humanidade como quem lê um mapa antigo, onde cada curva revela uma história de sobrevivência, de dignidade, de luta. Eu, porém, tinha apenas um par de olhos, um celular e o pulso do meu próprio tempo.
Ainda assim, houve um resultado—não o de uma cópia, mas de uma fagulha. As fotos capturaram uma verdade que o modo frenético da nossa era costuma perder: a expressão das crianças, a textura das roupas. O espaço em que vivem não é apenas cenário, é o corpo da vida deles – o chão de terra, o calor que sobe das paredes de barro, os colares das mulheres, os cajados dos homens que guiam suas ovelhas, o silêncio que envolve as pradarias ao cair da tarde.
Voltei para casa com a certeza de que a fotografia é uma ponte entre mundos que não se comunicam por palavras, mas por imagens que carregam assombro e humanidade. Cada retrato que fiz é uma oferenda humilde ao desconhecido, uma tentativa de deixar um rastro de respeito e de curiosidade. De reconhecimento de que ali viviam pessoas como eu: com risos contidos, com medos, com sonhos tão simples quanto o de uma noite bem dormida, de uma refeição na mesa e de afetos das pessoas com quem convivemos.
A lembrança de Salgado me fez perceber, através das crianças Massai, que a beleza não está na grandeza da monumentalidade, mas na forma como cada olhar se agarra à vida. Em cada foto, eu tentava ouvir mais do que ver, buscar a dignidade que não cabe em rótulos nem em reportagens, mas que respira no peito de quem acorda com o sol sobre a pele.
Se Salgado nos ensinou a olhar com olhos que escancaram a verdade, eu espero ter aprendido, pelo menos, a olhar com cuidado — para ver, para sentir, para deixar que os olhos dos meus retratos fiquem nas imagens e no coração.

