A chuva em mim

Eu gostava muito de chuva.

Gostava do barulho dos pingos no vidro da janela, do som suave sobre o carro ou sobre a barraca quando eu ia acampar.

Na minha infância, no verão,  eu ficava junto à janela vendo as árvores mexerem-se com o vento que anunciava a chuva. Quando esse cessava, eu subia num banquinho, abria a janela e ficava debruçada  sobre o parapeito. Esperava os pingos atrevidos que suavemente molhavam meus braços. Eram pequenos sustos gelados. Quando estava muito quente, eu corria pelo gramado ao lado da casa e entregava todo meu corpo a esse  banho celestial.

Também havia o prazer das arrumações nos dias de chuva. Gostava  de organizar as  roupas nos armários,  separando o que era para doar. Nas gavetas, eu folheava e organizava  memórias. A chuva era meu fundo musical para atividades manuais — cada pingo parecia marcar o compasso da tranquilidade.

Sempre achei que o mundo ficava mais calmo quando chovia, como se todos fôssemos obrigados a diminuir o ritmo, a ouvir mais e falar menos.

Mas nunca gostei das tempestades. Dessas com ventos zangados, céu rasgado por relâmpagos e trovões que fazem tremer as janelas e o coração. Aquelas que trazem a escuridão, que faz acender velas e deixam fantasmas circulando pela casa.

Mas da chuva suave, de folhas molhadas e passarinhos procurando abrigo, eu gostava muito. Foi assim por muito tempo. Até maio de 2024.

Depois das chuvas que inundaram a minha cidade e muitas cidades do meu estado, que arrastaram casas, pontes e sonhos, minha relação com a chuva mudou de tom. Ela perdeu a doçura, ganhou um eco de alerta.

A chuva não é mais a mesma, nem eu. É o mesmo céu, as mesmas nuvens, a mesma água, mas o que parecia sereno na memória  agora carrega um medo novo. Hoje, quando escuto a chuva, ainda há beleza, mas misturada a uma pontinha de inquietação.

O som que antes me embalava agora me interroga: será por muito tempo? Será forte demais? Virá vento? Desabrigará muita gente?

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