O grande rio

A enchente tinha tomado conta das ruas, mas para eles aquilo era apenas o começo de uma grande aventura. Juca e Nino remavam sobre um pequeno barco, agora transformado em nave de exploração. O bairro tinha virado um vasto rio.

— A gente tá no afluente do Amazonas — disse Juca, o mais velho, com a convicção de quem já tinha visto muitos documentários.

— É mesmo — concordou Nino — olha ali uma garça!

A “garça” era uma sacola branca, dançando na água, mas quem ia tirar o encanto da expedição?

Um gato sobre uma janela era um macaco-prego. Um rato correndo sobre uma cerca era uma pequena capivara assustada. Um casaco amarelo com pintas pretas boiando era uma onça pintada.

— O Amazonas é cheio de bicho mesmo — disse Nino, com a naturalidade de quem acabava de descobrir um novo mundo.

Remavam desviando de galhos, pedaços de cadeiras e placas “vende-se ouro”. No caminho, um cachorro nadava devagar, parecendo um peixe cansado.

Cada remada era um sonho, cada esquina uma curva nova do rio.

Passaram por uma rua onde os postes se inclinavam como palmeiras tristes e os prédios pareciam árvores enormes.

O sol tentava atravessar as nuvens e, por um momento, o reflexo dourado nas águas fez tudo parecer mesmo um outro mundo.

— Quando a gente chegar no Amazonas, vai ter boto cor-de-rosa, né? — perguntou Nino.

— E jacaré — respondeu Juca. — Mas tem que cuidar, eles gostam de morder o barco.

O barco balançou, e os dois riram. Era perigoso, claro, mas também bonito demais pra sentir medo.

Depois de muito remar, o “afluente” desembocou num rio largo e sereno. O horizonte se abriu, o vento soprou fraco e as águas pareciam não ter fim.

— Chegamos! — gritou Juca— O Amazonas!

Mas um homem num caiaque passou por eles e riu:

— Isso aí é o Guaíba, gurizada.

Eles se entreolharam, confusos por um segundo. E então, como quem entende que os nomes importam menos do que os sonhos, Nino respondeu:

— É o Amazonas disfarçado de Guaíba.

E ficaram ali, boiando em silêncio, os dois meninos e o barco, no meio da floresta de prédios, bichos e sonhos — onde Porto Alegre, por um dia, virou parte da Amazônia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima