A paisagem já não tem horizonte: tem paredes.
Homens e mulheres vivem empilhados, numa respiração coletiva.
O crescimento das cidades dá-se para cima. Todos querem ficar perto das escolas, do comércio, da vida cultural e social das cidades. Morar em casa, na maioria das vezes, significa gastar muito tempo em deslocamentos.
Curioso pensar que, apesar de estarmos tão próximos fisicamente — parede contra parede, andar sobre andar —, a vida segue distante. Cada apartamento é uma ilha suspensa. O concreto une e separa ao mesmo tempo.
Moramos uns sobre os outros, mas vivemos isolados. O prédio que deveria aproximar, separa.
Morei 10 anos num prédio de 60 apartamentos e mal sabia o nome dos vizinhos do mesmo andar. Talvez tenha sido por uma convivência não escolhida, mas por acaso. Seria sorte amigos mudarem-se para um mesmo prédio? Será que a amizade resistiria às discussões sobre gastos do condomínio, barulho das crianças, horários de silêncio e outras divergências comuns nos edifícios?
Melhor uma distância saudável e encontros desejados.
Quem supera esse isolamento dos edifícios são as crianças. São mais propensas a novas amizades e mais tolerantes com as divergências. Transformam tudo em brincadeira. Deveríamos aprender mais com elas.
Morei em uma casa, com um pátio enorme, por 18 anos. Na minha cidade, o edifício mais alto não tinha mais do que três andares. Lembro que quando tinha 11 anos vim a Porto Alegre numa excursão da Escola. Fiquei impressionada com essas caixinhas e gente morando umas em cima das outras. Ficava imaginando – tipo visão de raio – uma cama em cima da outra. Eles não têm medo de cair, pensava eu.
Aqui em POA, morei no segundo andar, depois no quarto, no sexto e, na última mudança, escolhi o 13°. Aqui estou eu morando em caixinhas, em cima de todos os meus vizinhos.
E não tenho medo de cair.

