Três vestidinhos de crianças pendurados para secar, um sofá ao lado da casa aguardando o calor do sol e as marcas na parede. Aquela linha marcada pela água que veio sem avisar, subiu sem pedir licença, em alturas nunca vistas. Invadiu portas, arrancou sorrisos de dentro das casas e deixou um silêncio pesado.
Nos abrigos, a solidariedade e a vontade de voltar para casa.
Passam-se dias e a chuva não para. As crianças sonham com seus brinquedos boiando e suas bonecas pedindo socorro. Não deu tempo de salvá-las.
As águas baixaram. Hora de voltar.
A marca na parede permanece — não como uma ferida que não cicatriza, mas como um mapa que ajuda a encontrar o caminho de volta. A enchente deixou marcas, sim, mais profundas do que se vê à primeira vista. Mas ensinou que a solidariedade e o afeto são o porto seguro para que o sorriso tenha fôlego novamente, para que a esperança volte a cada nova manhã. Cada vestidinho carrega um sonho, uma risadinha que talvez tenha sido dada enquanto outras chuvas, leves, batiam na janela e não ameaçavam. Depois, ficaram cobertos pela água e pela lama. Agora eles respiram fundo e sentem o vento que arrasta suas gotas. Logo serão lavados para que as marcas da enchente dê lugar à alegria de suas flores. Vestirão pequenos corpos que voltarão a sorrir e a mostrar que a alegria não foi afogada.
Mas além da esperança e alegria que lhes são peculiares, o que esse evento pode ter deixado em suas inocentes mentes?
Com certeza, o medo da chuva volta como um eco antigo a cada raio que risca o céu. Talvez, pesadelos cheguem sem convite e a criança acorde com o coração disparado, procurando nos cantos da casa uma presença segura que lhes diga que “a chuva é fraca”.
Há quem tente medir tudo com números e estatísticas, mas a criança não cabe em gráficos. O trauma é invisível, tão sutil quanto o vento que sussurra pela janela. Uma insistência em checar portas, uma repulsa de ficar sozinha, uma dúvida sobre se a casa ainda é um lar seguro ou se precisa ser reforçada para enfrentar nova enchente.
Mas a mãe repete “tudo voltará ao normal, não tenha medo”
Depois da enchente, cada canto da casa diz: tudo passa, nós permanecemos. E os três vestidinhos, em seus cabides simples, viram símbolos de resiliência: roupas que voltam ao uso, histórias que voltam a ser vividas, crianças que, mesmo diante da água, continuam a crescer com coragem.

