Nuvens enormes se pronunciavam no horizonte. As pessoas da cidade já começavam a recolher suas roupas dos varais. A previsão do tempo estava certa. À noite a chuva chegaria. Vento, raios e trovões. Todos correm assustados. A tarde virou noite em segundos. Cães latem. Não é uma tempestade comum. Há mais tensão no ar. As ruas estão vazias. Árvores caem. Telhados voam para longe. Postes são derrubados deixando a cidade sem energia. Só resta esperar o dia nascer para avaliar o prejuízo.
O sol desponta, todos vão as ruas. A visão era de fim do mundo. Telhas para todo lado, árvores arrancadas pela raiz, muitas aves e cães mortos. Casas sem seus telhados, telhados sem suas casas. A tristeza toma conta de todos, até que alguém grita com um tom de medo e curiosidade: – o que é aquilo na torre de energia? Todos ficam boquiabertos com o que veem mas ninguém consegue definir o que é visto. Um objeto aparentemente metálico, quase losangular, do tamanho de um Fusca, preso nos fios da torre de luz. Teria sido trazido pela tempestade? Teria caído durante o temporal? Teria criado o temporal para não ser visto? Ninguém sabia explicar e a imaginação do povo já ia formulando teorias absurdas. Falavam em explosões, coisas caindo do céu, homenzinhos verdes. Nessas horas a criatividade vai longe. O que havia de fato, era aquele objeto enrolado nos fios da torre de energia.
Em poucas horas, as coisas começaram a ficar mais tensas com a chegada de muitos carros do exército. Cercaram toda a área da torre com tapumes, o que deixou a população mais curiosa ainda. Helicópteros chegam a cada minuto. Um hospital de campanha erguido rapidamente. Caminhões de comida vão chegando. A cada hora mais militares desembarcam e o perímetro de segurança que cada vez mais é movido para longe do objeto.
A pequena cidade começou a ficar movimentada. Restaurantes cheios. Lancherias que não conseguiam dar conta de tantos clientes. Hotéis, antes habitados só pelos seus proprietários, agora estavam lotados e com enormes filas de espera. Gente da televisão, dos jornais, do governo, das forças armadas, muita gente. Moradores passaram alugar quartos das suas casas. A cidadezinha não consegue atender a essa explosão populacional.
A notícia correu rápido e chegou longe. Começaram a aparecer pessoas esquisitas, de vários lugares do mundo. Profetas do Oriente Médio, Xamãs da Sibéria, Sufis da Capadócia, Monges Budistas do Tibet, Magos e Bruxas da Europa, Pajés do Amazonas e do Xingú, todos atraídos pela notícia de que algo havia caído do céu e isso seria um sinal de que não estamos sozinhos no universo, pois alguns extraterrestres estariam dentro do objeto, esperando para serem resgatados.
Logo, um esperto resolveu ganhar dinheiro abrindo um bar. Outro, trouxe umas garotas sabe-se lá de onde e abriu uma casa de tolerância, um lupanar. A cidadezinha outrora pacífica e silenciosa, em poucos dias se transformou em um lugar barulhento, cheio de brigas e machões dando tiros para o alto, assustando a pacata população original. Nesses dias, Minas do Camaquã fundou a sua própria casa de apostas, a MC Bet cujo símbolo não era o Tigrinho, e sim um Gato Palheiro Pampeano. Farmácias com nomes de santos, principalmente São Pedro, por ser padroeiro do estado e Santo Antônio por ser muito querido dos gaúchos, surgiam a cada dez minutos. Apareceram também muitas igrejas, como a do evangelho circular, Triangular, losangular, em fim, igrejas de todas as formas geométricas possíveis. Foi assim por mais ou menos três dias. Brigas, bebedeiras, casssinos clandestinos, prostituição, drogas. A pequena cidade antes desconhecida virou rota de tudo que a sociedade moderna tem de ruim e de bom.
No quarto dia, como que por magia, todos sumiram. Sem militares, sem hospital de campanha, sem helicópteros, nada. A população local então partiu para a região da torre de energia a fim de finalmente ver o objeto e tentar entender melhor o que teria acontecido.
Chegando lá, nada de tapumes. Nada de militares, policiais, médicos, socorristas, homens de preto, todos haviam desaparecido juntamente com o misterioso objeto. Só o que restava no local era a torre energia no seu devido lugar e funcionando como se nada tivesse acontecido.
Decepcionados, voltaram todos para a cidade. Foram observar o melancólico espetáculo da saída dos forasteiros que por uns poucos dias bagunçaram a rotina da pequena Minas do Camaquã.
O objeto? Ninguém ficou sabendo o que era, nem quem o removeu e, muito menos, para onde fora levado. Só o que sabem é que terão muitas histórias para contar nos próximos anos.

