A vida dos camponeses no sul era pesada e triste. Ainda ardiam as feridas da escravidão. A exclusão pela cor da pele era lei. Robert Leroy Johnson sempre quis fugir das lavouras e para tal, começou a tocar guitarra. No Brasil chamamos de Violão, mas é o mesmo instrumento. Como tantos outros de sua geração, Leroy não tinha muita aptidão para a música mas a vontade de largar os campos de algodão era enorme.
O sonho de todo artista do sul era seguir o Mississipi e ter o auge da sua carreira em Chicago com todos os seus bares e grandes gravadoras da época. Diz a lenda que Robert Johnson sumiu por uns tempos e, em uma noite específica, no cruzamento da estrada 61 com a 49, sentou no chão com a sua guitarra e uma garrafa de whiskey. Começou a tocar até que do nada, apareceu um homem que pegou o instrumento de Johnson, tocou e cantou um pouco. Mudou a afinação, mexendo nas tarrachas e o entregou de volta enquanto caminhava dando gargalhadas, até sumir completamente na névoa da noite. O pacto estava selado. Robert vendeu sua alma para ser famoso. Ele morreu aos vinte e sete anos, em circunstâncias difusas e encobertas por um véu de misticismo. Gravou somente 29 canções que lhe deram sucesso e são interpretadas até os dias de hoje por músicos de Blues do mundo todo.
Ana e Laura eram melhores amigas desde tenra infância. Sempre companheiras em tudo, passeios, esportes, festinhas e mesmo nos dias onde não havia nada de especial para fazer, elas faziam nada juntas.
Cresceram, estudaram, amaram, chorararm, dançaram, saíram da escola, arrumaram empregos. Ana em uma lanchonete, Laura na bilheteria do cinema da pequena Haezlhurst. Ana se tornou atriz e Laura encantava a todos cantando Spirituals aos sábados, na igreja.
Quanto mais as duas andavam grudadas, mais o pai de Laura ficava desconfiado. O velho, um típico homeme branco, conservador, armamentista, racista, como muitos ainda eram no sul, suspeitava que as duas estariam tendo um relacionamento amoroso, algo inadmissível para ele. Começou a segui-las em todos os lugares, nas ruas, no cinema, na lanchonete, no clube, nas praças onde elas faziam os seus piqueniques, e ainda ficava a espreita quando Ana ia dormir no quarto de Laura. O homem ficava louco a ponto de espiar no buraco da fechadura do quarto para tentar ver algo que lhe desse razão em sua paranóia.
As meninas começaram a perceber que havia algo estranho acontecendo pois em qualquer lugar ou ocasião o pai de Laura aparecia tentando aparentar naturalidade.
Tudo se complicou ainda mais. O homem nunca conseguiu ter uma prova daquilo que se tornou sua loucura. Abandonou o seu trabalho para seguir as meninas no dia-a-dia. Andava bêbado e esfarrapado pela rua, chamando pela sua Laura. Teve de ser internado e acabou por falecer no hospital psiquiátrico.
Laura e Ana então decidiram deixar o passado para trás e seguiram para o norte, rumo a Chicago onde todo artista do sul sempre desejou se fixar para exercer a sua arte.

