O Baio

Nos fins de tarde de inverno, quando a névoa fria começava a se debruçar pelo pampa sem fim, ficávamos mateando na varanda, cobertos com mantas de lã feitas pela vó Firmina, relembrando histórias, roendo bolachas e rapadurinhas de leite compradas do lado de lá da fronteira.

O velho Procópio, meu pai, cansado da lida, ficava emocionado com a paisagem e sempre falava do seu cachorro mais companheiro, obediente e destemido que já viveu na fazenda, O Baio. Esse era um cusco taura! Sereno com os seus donos, uma fera com quem vinha mal intencionado.

Em uma tarde de domingo, como de costume, fomos passear no centro da cidade. Tomamos sorvete na única sorveteria da região. Depois comemos pipocas e bebemos gasosas sentados no coreto da praça central. Meu pai ia para o bolicho do seu Alencar para beber uma purinha, jogar truco e fazer pequenos negócios. Antes de ir, dava ordem ao Baio para ficar com as crianças. E assim o cusco fazia. Onde nós iamos, ao lado sempre estava o cachorro, parado como uma estátua de bronze.

Como bom cão de guarda, tinha um sentido aguçado para detectar gente maleva. Toda vez que um rapaz se aproximava de minha irmã, uma morena lindaça, prendada e pronta para casar, ela olhava para o cusco, como se perguntasse se o pretendente valia a pena ou não. Se ele rosnasse, o rapaz não era boa coisa. Se ficasse impávido, mirando o horizonte, significava que o guri poderia dar um bom marido.

Certa vez, caminhávamos tranquilos pela 7 de Setembro quando sem mais nem menos, o Baio se atracou num vivente mui bem vestido que havia passado por nós. O bicho fez um estardalhaço tão grande que até os brigadianos vieram ver o que se passava. Depois de rasgar quase toda roupa do homem, o Baio arrancou algo do bolso do paletó do infeliz. Veio até os pés do velho Procópio e soltou o objeto no chão. Logo percebemos, era a carteira do meu pai. No fim das contas, o rapaz era um punguista procurado que se aproveitava das famílias que iam à cidade nos domingos e só percebiam que tinham sido roubadas muito tempo depois.

Bom como cão de guarda, muito melhor como cão de pastoreio. O cusco ajudava meu pai e os peões nas invernadas. Adorava desentocar Mulitas e levava para que meu pai cozinhasse essa iguaria do pampa. Matava cascavéis e jararacas. Se atirava, sem medo, em guarás e gatos-do-mato-grande. O capataz da fazenda disse que até uma Onça ele já tinha botado pra correr. Jaguarundis e jaguatiricas eram brinquedo pra ele. Líder incontestável de toda da cachorrada da fazenda, até os touros o respeitavam.

O tempo foi passando e tudo que é vivo, um dia morre. A única vez que vi meu pai derramar uma lágrima fria a se escoar pelos sulcos daquela pele esculpida pelo minuano e pelo sol inclemente do verão, foi quando, o Baio, já mui viejo, deu o seu último suspiro. Foi um dia frio e cinzento, daqueles que nada aquece os ossos, nem amargo bem cevado, nem acochambro de china. Um dia que a gente só quer que acabe.

Por semanas, meu pai ficou só mateando e mirando o campo até o sol se pôr na banda Oriental, onde, depois das lidas, o Baio ia correr perdizes, só pra inticar com as bichinhas.

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