A Vinda de Mainha

Sua bença, dona Capitolina!

Estou lhe escrevendo para que a senhora não esqueça de um casaquinho pois aqui onde moro tá fazendo um frio que não é fácil de enfrentar, ainda mais para uma senhora nascida e criada no calor Recôncavo.

Peço também que tome cuidado! O ônibus vai lhe deixar no maior terminal da América Latina, isso significa muita gente vindo de vários lugares do país e também muitos golpistas e batedores de carteira a espera de alguém distraído para conseguirem uns trocados. Há também, entre todos os enganadores, um tipo singular, os pastores. Muito cuidado pois podem lhe fazer uma lavagem cerebral, tomar todos os seus bens e você ainda vai achar justo. Distância deles!

Sua neta, Amélia está louca para lhe conhecer. Imagine, está há cinco anos ouvindo histórias de uma avó que nunca viu! Conhecer a senhora vai ser uma grande surpresa para ela. Na escolinha, sua neta já fez vários desenhos retratando Mainha e algumas das histórias que contamos a ela, como aquela vez em que aquele seu gato, Inácio, trouxe uma cascavel para casa, causando pânico em todos menos na senhora que, sem titubear, tacou uma frigideira na cobra dando fim a sua vida rastejante.

Contamos à Melinha, também, quando, a contra gosto de toda a família, Mainha resolveu que ia se mudar para o meio do nada no Sertão. Dona Capitolina era retada! Ficou dois anos sem mandar notícia até que, um dia, resolvi aparecer para ver se a senhora estava bem e me deparei com uma Suçuarana deitada no sofá de sua sala. Peguei uma vassoura e fui correr com a onça quando a senhora pulou pra frente da fera e disse:  Não toque em Oncinha! Ela é carinhosa, brinca comigo e me protege. É minha única amiga, minha única companhia por aqui!

Não é a por acaso que os bichinhos de pelúcia preferidos de Melinha são um gato, uma cobra e uma Suçuarana.

Sei que aí no interior da Bahia não tem muitas opções para a senhora comprar um presente então, deixei reservados três vestidinhos aqui no brechó na frente de casa, para que a senhora possa escolher o que achar mais bonito e presentear a Melinha no seu sexto aniversário.

Que a senhora fique bem, faça uma boa vigem e que Deus, Nossa Senhora e os Orixás lhe protejam.  

De Antônio, seu filho.

Sua bença, Mainha!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima