Cecília

Tem coisas que a gente lê quando tem, sei lá, dez anos, que na época parecem muito simples: o poema Ou Isto ou Aquilo é uma delas.

Os anos ensinaram que chegar ao simples é de uma complicação só, ou complexidade, para ser mais precisa e soar menos desorganizada. Ao menos para quem tem a lua em libra (será que faz diferença?).

Optar por um caminho é abrir mão de infinitas possibilidades, e hoje me vi desistir de um muito importante, porque esgotei nele todas energias que tinha. (Aguardar o idealizado é uma espera a que, exatamente, já que existia “só” em pensamento? Construímos casas imaginárias com o que sonhamos? Moramos nelas por quanto tempo?)

Escolhemos o quê, enquanto vamos sendo escolhidos pela vida e pelos acontecimentos, pelas pessoas e pelo acaso?

O tempo também me fez ver que, em coisas pequenas, o primeiro impulso que tenho não é com o que definitivamente, vou ficar: daí desenvolvi um método esquisito, para escolher logo o segundo. Parece estranho, mas são as artimanhas que a gente cria, e que as vezes funcionam (ou não).

Também percebi que escolho por exclusão: esta blusa não fica bem ? Visto e vão caindo os motivos no chão, a um tempo que reste somente ela, quase como aquele escultor que tirava do mármore tudo que não fazia parte dele. E não é que ficou bonita?

Tem também as escolhas sobre o que fazer com o tempo: o que parece mais urgente, o que tem prazo? Certamente o primeiro será o mais importante, ou seja, aquele que ocupa o maior espaço mental: escrever esta crônica enquanto o trabalho atrasa.

Uma juíza certa vez me confidenciou: nas decisões difíceis, pensava muito, mas depois de resolver, ficava tranquila. Quem dera meu cérebro trilhasse o mesmo caminho. Entre os escolhidos, vai restar a eterna dúvida: e se eu tivesse ido pelo caminho oposto? Que vida teria tido? (Não só o caminho oposto, mas as vezes uma variação pequena na estrada: e daí, não vamos parar lá do outro lado?)

Enquanto acumulo livros que, se não comprados, certamente morreria mais sozinha (e que não são necessariamente lidos, porque se trata de outra coisa, muito diferente), ainda fico pensando: ou este, ou aquele? (Quem sabe um terceiro?)

Cecília Meireles: como eu te entendo, com mil anos de atraso.

Ainda que minhas escolhas sejam, como de todos, as melhores possíveis, tenho que acomodar a ideia que serei sempre alguém que vai vivendo cheia de pontos de interrogação.

 

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