Quando abri a porta, tocou um sininho, talvez porque pouca gente entrasse ali. Olho algumas fotografias, dissimuladamente, para não chegar direto naquela.
– Moço, vocês têm esta aqui ?
– Sim, podemos imprimir, sob encomenda.
– O senhor sabe a metragem? (a conversa era sempre a mesma, porque eu sabia que não tinha nem parede, nem dinheiro, o que não me impedia de admirá-la).
Fornecidos todos os dados, umas duas vezes ao ano, ou mais, eu acabava confessando:
– Há anos namoro essa foto…
– Claro, lembrei da senhora quando entrou…
Fiquei com vergonha e espacei um ano, ou mais.
Na primeira vez entramos juntos, os três, como sempre estávamos depois de alguma consulta importante. Como eram muitos médicos, sempre que podíamos fazíamos um lanche depois. Então foi sem querer que encontramos a loja, ao lado dos pasteis de Belém, que já moravam ali há algum tempo, acho eu. Também juntos nos surpreendemos com a beleza: uma fotografia imensa, em preto e branco, tão grande como comprida, numa desproporção primeiramente esquisita e que depois fazia todo sentido. Retratava um temporal, a praia da Guarita, as ondas batendo nas pedras, uma casinha solitária, e, num outro extremo, a ilha dos Lobos, trazendo um dos poucos focos de claridade. Imediatamente pensei: um dia será minha.
(Sempre fui fascinada por temporais e tragédias gregas. Talvez pela magnitude e pelo contraste, que tornam todos os detalhes mais interessantes que dias tranquilos. Quando passam deixaram um rastro, mas: que lindo! )
Passaram-se alguns anos, paredes por serem organizadas, uma pessoa a menos e dinheiro a mais, entrei novamente na loja, que ainda existe e existia.
– Moço, vocês tem essa foto?
Algumas semanas depois ela já morava comigo.
Poderia contar nos desafios de logística para que ela ficasse onde está, que na cidade somente um lugar tinha um vidro daquele tamanho, na dificuldade que foi achar quem faria a entrega e quem instalaria e na tristeza de descobrir do próprio fotógrafo: tinha sido feita pela manhã e não à noite, como parecia, após um grande temporal. Fosse eu mais provida de lógica teria chegado a esta conclusão: que noite poderia trazer luz à Ilha dos Lobos? Acontece que a paixão é maior que tudo e esconde o racional da vida.
Vai ficar para sempre ali, simbolizando tudo de tão bom que tivemos.
Além da linha do horizonte, que não sei bem para onde vai (como os antigos navegadores, que não sabiam o que encontrariam, se monstros, carrancas ou novas terras) e é onde nos encontraremos todos, um dia.
Os temporais não carregam todas as lembranças.
O amor sempre fica.

