Matunaimi

No vilarejo de Umoja, no norte do Quênia, os irmãos Kamau e Jitu inventam mais uma brincadeira para se divertirem sob o clima árido e desértico da região.

Desta vez, Kamau, o mais velho, soube fazer algo parecido com o “jogo da velha”, usando um tabuleiro desenhado na terra, conchas e missangas coloridas que conseguiu furtivamente das peças de artesanato de sua mãe. Jitu não entendia o jogo, ainda era muito pequeno, mas se divertia com a combinação das pedrinhas no chão.

A realidade da infância no vilarejo não era fácil, mas as crianças, como sempre, contavam com a mágica da imaginação.      

Umoja, que significa “união” na língua suaíli, é uma comunidade matriarcal, um refúgio para mulheres e crianças, onde os homens acima de 18 anos são proibidos de viver (embora possam visitar durante o dia). Tudo isso com o objetivo de oferecer um santuário seguro para sobreviventes de violência de gênero e outros abusos, que infelizmente são comuns na cultura de vários países da África.

As casas são construídas pelas próprias mulheres, que geram renda através da venda de artesanato tradicional com miçangas para turistas, além de administrarem um acampamento de safári próximo à vila. Elas usam esses rendimentos para sustentar a comunidade, comprar comida e fornecer educação para as crianças.

A vila possui uma escola primária e creche, as moradoras trabalham ativamente para educar mulheres de outras aldeias sobre seus direitos, oferecendo um espaço para a recuperação e a reconstrução de vidas. 

Kamau e Jitu são alheios a toda essa luta e fundamentos de Umoja. Os maiores desafios dos irmãos são inventar novas brincadeiras quando enjoam das antigas. Seus sorrisos inocentes contrastam com o choro das mulheres recém-chegadas à vila, ainda impactadas pela violência que sofreram.

De longe, Zuri, a mãe dos meninos, observa com um sorriso contido as crianças brincando. Ela não pensa na parte triste e dramática que envolveu a concepção de seus filhos. “Não importa quão longa seja a noite, o dia virá certamente”, repete mentalmente o proverbio africano sobre esperança.

O trauma passado hoje dá lugar à alegria de poder recomeçar em um local onde todas compartilham suas dores e medos, transformando o absurdo sofrido em força. As crianças de Umoja são ao mesmo tempo uma prova do abuso, sobretudo, da esperança que o futuro será melhor e mais seguro.

Kamau olha para sua mãe na porta da pequena cabana e devolve o sorriso. Ali é seu mundo e tudo que conhece dele. Ele entende o significado do olhar carinhoso e cheio de amor de sua mãe, mas precisa voltar à difícil tarefa de enfileirar as bantas (bolinhas de gude) e explicar o jogo a Jitu, que aguarda ansiosamente pela brincadeira.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima