Eu, formiga

Como assim, quem você pensa que é? Eu sou um ser humano.

Numa perspectiva teológica da era judaico-cristã, o ápice da criação.

Quem está no mundo para honrar a Deus, ser Dele imagem, semelhança e, na falta de outro candidato, procurador.

Portador de alma eterna e mente brilhante – a tudo dei nome, a todos submeti, povoei os rincões mais insalubres e as mais aprazíveis paisagens.

Voei sem poder voar, mergulhei driblando a falta de oxigênio, escalei os mais elevados picos e desci aos espaços mais profundos do planeta.

Mais: viajei para fora da Terra em sondas de estudo remoto, estações orbitais, o solo lunático tem minhas pegadas.

Submeti às minhas vontades os maiores exemplares de animais terrestres e marinhos, venci as mais terríveis feras, transformei à minha conveniência espécies de companhia e pastoreio.

Controlei pragas, contornei vulcões, domei raios. Alterei a paisagem a ponto de nada mais se parecer com o dantes.

Mergulhei na filosofia de cabeça, desbravei o imaculado habitat do inconsciente, aprendi a amar. Também a matar quem me contraria.

Não se engane com meu porte, não. Nem com minha fragilidade. Sou o cara.

 

E é assim que a montanha deixa o homem a falar sozinho. De vez em quando oferta-lhe um eco e, por ser eco, concorda sem dar ouvidos.

A favor da montanha, um tempo até mensurável pela ciência humana, mas imensurável por sua experiência. Em sua rudeza um porte inerte e zeloso. Atávico.

Não que a montanha seja surda aos arroubos humanos. Apenas não vê tanta diferença dos movimentos em tudo fortes e incansáveis de um formigueiro.

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