Birras, Dolomitas e uma vã filosofia

Nos vastos Alpes italianos, entre o cansaço do trekking e uma simulada meditação, dei início à efetivação de uma epifania. Diante do Lago di Garda, sentei-me numa pedra e abri a mesa dobrável que consegui no hotel — tão frágil que, se o vento soprasse um pouco mais, viraria uma pandorga.

Sobre ela depositei um copo e uma latinha de Birra Moretti, das oito que levei na mochila. Abri. A cerveja era uma espécie de prêmio: após uma abstinência virtuosa e completamente infrutífera (foram cinco anos sem beber), descobri que a sobriedade é superestimada — a tal paz interior, se dependesse de reuniões de AA, meditação e long necks sem álcool, já teria me encontrado. Meu eu-boêmio, abraçado pelas Dolomitas, enfim voltou. Com ele, a ideia: feito um Sócrates de bermuda e botas de caminhada, resolvi questionar alguns incautos montanhistas sobre a vida, numa espécie de consultório filosófico-alcoólico-montesino, tão inusitado quanto meu estado de espírito.

O primeiro que abordei, um alemãozão cor de rabanete, vinha carregado de tranqueiras e parecia mais tecnológico e bem equipado que a NASA. “Senhor, em sua opinião, a solidão é uma condição humana inevitável ou pode ser resolvida com um bom sistema de GPS?” — perguntei. Ele me olhou como se eu fosse uma espécie rara de inseto, grunhiu algo — talvez um palavrão — e voltou a caminhar. Depois, uma mulher, italiana, elegante e toda suada, que parecia ter saído de um catálogo de roupas esportivas. “Madame, a senhora acredita que o amor perdido é uma tragédia ou uma simples falta de compatibilidade logística entre as partes?” — questionei, tomando um gole. Ela sorriu, olhou para o horizonte e respondeu baixo: “Olha, meu ex, que acha que subir escadas rolantes já é aventura suficiente, terminou comigo por eu ser adepta do alpinismo. Tragédia não foi, hoje bem sei. Falta de gestão? Talvez, de ambas as partes. Amor e tempo perdidos, enfim”. E seguiu, deixando um rastro de perfume caro e de melancolia no ar rarefeito.

Continuei. A uma jovem que buscava “se encontrar”, sugeri, em tom etílico-professoral, a seção de achados e perdidos de um centro budista logo ali, na Toscana. Para a mulher bonita que queria ter a “energia das montanhas”, ofereci a minha, com 8% de teor alcoólico no momento. E, com um casal de brasileiros que via problemas em tudo, tentei uma metáfora citando a mesa instável, o ponto de equilíbrio e o clichê do copo meio cheio, meio vazio — eles fingiram não entender meu sotaque.

Já bêbado a essa altura, me dei conta que opinião não pedida é como cerveja quente, ninguém gosta. Desisti. Sobre a mesinha, restaram oito latas vazias e a decepção com o mundo, intacta. No caminho de volta a Trento, convencido por um grupo de franceses barulhentos, decidi que o bar da cidade seria o local mais adequado para buscar respostas vãs para os dramas da vida, com mais fôlego e menos esforço. Mas sem me abster de uma dose de irreverência, claro — nem da necessária embriaguez.

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