Há milhares de anos, quando os primeiros lobos ousaram se aproximar dos agrupamentos humanos, talvez ninguém imaginasse que dali nasceria a mais terna história de amor entre espécies. Sentimento esse que, cruzando milênios, desembocaria também na minha vida, como um rio manso que sempre retorna ao seu curso.
Minha infância foi moldada por patas inquietas e narizes úmidos, a começar pela imponente Flika, pastora alemã que parecia entender meus segredos antes mesmo de eu contá-los. E havia também o Sultão, o perdigueiro dos meus tios, cuja elegância nobre me ensinava que cães são, desde cedo, professores silenciosos. Depois deles, fiquei um tempo longe dessa convivência diária, como quem se afasta do próprio coração sem perceber. Mas o destino — esse vira lata brincalhão — tratou de corrigir meu rumo.
Quando retornei ao universo canino, reencontrei uma parte de mim que estava apenas adormecida. Conan, o bárbaro, chegou primeiro e era selvagem só no nome, porque era de uma doçura capaz de derreter qualquer tristeza. Em seguida veio a Druska, a mesma do livro infantil, mostrando que literatura e vida podem dividir o mesmo colo. Ideafix, sempre fiel como no mundo de Asterix, provava que lealdade não precisa de tradução. Jack, o Daniels, brindava a existência com sua alegria destilada em lambidas. Tina, a Turner, dançava a própria felicidade ao meu redor, como se cada dia fosse um palco iluminado. Stella, a Maris, trazia calmaria de maré baixa, exceto na hora dos petiscos. E agora vivo os dias com Dorival, o Caymmi, companheiro serelepe cuja velhice gentil lembra um pôr do sol nas belas praias baianas, que dói e consola ao mesmo tempo. Assistir seu envelhecer é aprender sobre o tempo com delicadeza e gratidão. Se vier outro, já sei: será Cauby, o Peixoto, com latidos afinados e melódicos. Ou, se for guria, Nina, a Simone, que dedilhará com suas unhas o piso imaginando um Steinway.
Porque nomear um cão é como escrever poesia com o coração. E viver sem eles é quase impossível – como tentar respirar sem ar. Cada um, adotado, resgatado, encontrado ou enviado por alguma força misteriosa. Origem nunca importou. Sempre interessou o amor que eles entregam sem pedir recibo. Amor que não exige explicação, apenas presença. A ciência diz que cães e humanos liberam ocitocina quando se olham. Eu digo que é magia. Eles percebem nossa tristeza antes mesmo de nós. Sincronizam o coração com o nosso, como se afinassem a própria alma.
E nós, em troca, lhes oferecemos abrigo, comida e um colo que tenta compensar o que eles nos dão de sobra. A verdade é que eles nos tornam melhores. Mais pacientes. Mais empáticos. Mais humanos, ironicamente. E, quando partem, deixam um silêncio que late dentro da gente. Um vazio cheio de lembranças. Cada rabo abanado é uma página escrita. Cada lambida é uma palavra de afeto. Cada olhar profundo é uma promessa eterna.
A história do cão Hachiko, no Japão, prova que o amor canino ultrapassa a própria vida. E, de certa forma, todos os meus cães foram um pouco Hachiko. Todos esperaram por mim, todos me acompanharam, todos acreditaram em mim. E continuam acreditando, mesmo quando, às vezes, eu mesmo duvide.
São anjos que atravessam nossa existência, capítulos essenciais da minha história, páginas vivas que jamais se perdem.
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p class=”MsoNormal” style=”text-align: justify;margin: 7.0pt 0cm 7.0pt -7.1pt”>E por tudo isso, aprendi que a verdadeira fidelidade não se explica,
apenas se sente, como um sopro quente pousando no coração.

