Família sempre gosta de passear junto, levar os filhos para lá e para cá. Tem aula disso, aula daquilo, reunião aqui, reunião acolá sempre se envolvendo uns com os outros. Caminhando de mãos dadas, alegres a cantar.
Lembro da primeira vez que meu filho mais novo começou a tocar flauta e aprender as primeiras notas musicais. Ele estava na quarta série do ensino fundamental. Tinha nove anos recém feitos. Foi um horror. Uma desafinação. Não conseguia acertar uma nota. Quase ficou em recuperação em música. Um verdadeiro absurdo!
Na época, resolvi conversar com a professora. Coisas de mãe. Estava realmente muito preocupada. Ela era completamente louca. Começou a falar comigo como se eu fosse a maior das entendidas em notas musicais e ritmos. Quase enlouqueci. Ela falava, tocava e tentava me ensinar. Imagine só a minha cara de paisagem ao tentar entendê-la. Não conseguia prestar atenção. Só olhava para o meu relógio, preocupada com a hora do meu expediente de trabalho.
Meu Deus do Céu! Pensava. Só faltava eu também ser reprovada. Logo eu? Uma CDF de mão cheia, completamente ignorante nesse tema, sem ritmo musical, mal conseguindo bater palmas para acompanhar alguma música. Sabendo apenas dançar e acompanhar o balanço. Fiquei arrasada. Achei mesmo que ele iria ficar em recuperação e eu não poderia ajudá-lo. No máximo, dar um apoio moral.
Os dias se passaram e o Henrique ia ensaiando, sem parar. Já não aguentávamos mais tanta desafinação. De repente, como toda criança, ele me surpreendeu. Depois de tanto insistir, ensaiar e decorar as malditas notas e irritar os tímpanos de todos daqui de casa, ele não só aprendeu, como também tomou gosto pela música. Aprendeu violão, guitarra e teclado.
Junto com o irmão mais velho, o Renan, que aprendeu a tocar bateria com vários baldes (balderia, inicialmente) tiveram até uma banda de garagem, com estúdio e tudo que tinha direito. Ainda conseguiram fazer algumas parcas apresentações fora dela. Era a Calamidade Pública, com suas músicas e letras próprias, algumas calamitosas, outras românticas. Depois de um tempo parada, a banda trocou de nome, virou Ainda Vivos, por que ninguém mais se lembrava deles.
O tempo passou. O estúdio aqui em casa ainda existe. Um pouco descaracterizado. Os guris tornaram-se homens, casaram, tiveram filhos. A banda, ficou na memória. Os instrumentos estão todos no estúdio, ou o que sobrou dele. Quando há a possibilidade da família se reunir, inclusive com os seus filhos, meus netos, tocam e cantam alegremente de uma forma contagiante, como se o tempo não tivesse passado.
As crianças adoram a bagunça. Levam jeito. Deixo-as tocar. Vivas!

