Greta e outras gretas

As montanhas sempre me fascinaram desde criança. A grandeza que elas têm mostra o quanto somos pequenos diante do colosso da natureza. Não passamos de simples grãos de areia quando nos deparamos, frente à frente, com essas gigantes. É de perder o fôlego. Não sou alpinista, nunca tive pretensão de ser, admiro quem pratica esse esporte. Gosto de viajar e de aventura. Controlada!

E foi assim que partimos rumo a El Calafate, Patagônia, de motorhome com um casal de amigos.  Queríamos subir a famosa geleira Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares. De tudo que vimos e fomos durante trinta dias nessa região gélida, subir nesse famoso monte, foi uma das maiores emoções que já passei na vida.

 Fomos em janeiro de 2010, em pleno verão frio patagônico. Os gelos caíam em blocos enormes e se espatifavam no imenso lago azul cristalino, fazendo um estrondo semelhante ao das ondas de mar. Uma beleza indescritível. Estávamos só observando, de longe, bebendo um chocolate quente ao ar livre congelante, sentados num bar e tentando ter coragem para subir naquele monte de gelo!

Eis que a hora tão esperada havia chegado. Tive que comprar um tênis próprio para se adaptar ao calçado que os guias iriam colocar em nossos pés para podermos caminhar e subir o Glaciar.

 Primeiro susto: o guia me falou que o meu tênis estava meio frouxo, talvez não conseguisse se adaptar ao outro que iria por cima. Fiquei nervosa, mas disse que era impressão dele. Estava bem apertado e firme nos meus pés. Segui em frente.

Segundo susto: comecei a longa, íngreme e escorregadia caminhada, devagarinho, com medo e ao mesmo tempo, excitada pela aventura que estava acontecendo. Sou meio desajeitada para este tipo de esporte com subida e descida. Havia muitas frestas perigosas, as quais, estavam cheias de placas com os seguintes dizeres de alerta: cuidado com as gretas! Fiquei arrasada. Já não bastava eu mesma ter que cuidar de mim, a própria Greta, ainda tinha que cuidar das outras? Com o meu nome? Ainda em letra minúscula? Controle-se Greta. Pensava.

Terceiro susto: o pior de tudo é que as gretas se avolumavam, eram cada vez maiores e tínhamos que pulá-las para não cairmos dentro delas e virarmos para sempre picolés. Os guias não tinham nenhum equipamento ou cordas para nos resgatar caso o imprevisível ou previsível acontecesse. O temor aumentava cada vez mais e eu, a Greta, cambaleava com medo de cair dentro de outras gretas.

 Último susto: de repente, dei um rodopio, quase caí, foi uma correria danada e o guia, muito educado e gentil, como um bom argentino, sugeriu que eu descesse por medida de segurança. Claro que não aceitei. Então, ele esticou a sua mão, me segurou e disse: agora, venha comigo e foi assim que virei guia junto com ele, por um dia. Acenava, assobiava e mandava o grupo me seguir. Ah, como é bom viajar e se aventurar. Controlada!

 

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