Troca e troco

Conheceu o ofício de seu avô Raimundo quando morou na Capital. Isso foi antigamente, no tempo dos bondes. O trocador dobrava cédulas de dinheiro com esmero,  entre os dedos de uma mão, para servir de troco. O valor das passagens que recebia era colocado nos bolsos, enquanto se movia pendurado nas laterais do bonde em movimento.

O trabalho exigia agilidade e equilíbrio. Era o tempo de deslocamento dos passageiros que ditava o ritmo. O valor de seu trabalho, seu sustento e o orgulho do netinho, eram troco valioso de seu tempo. 

Ir de um lugar a outro no plano físico não  basta. Temos a pretensão de nos ligar ao eterno, ao sagrado. Assim, cultuamos divindades à nossa imagem e semelhança.  Atingir o impalpável e invisível cria a necessidade de materializar figuras e dar nomes a elas. Essa tentativa de encontro com o divino, escancara  nossa incapacidade de conexão com o sagrado, sem ajuda do profano.

Os rituais, por vezes, incluem acender velas deixando que queimem até quase desaparecer, ao lado de figuras em barro ou gesso, antropomórficas. Flores são homenagem constante para louvar o eterno, mesmo que tenham vida efêmera. Já não enfeitam altares dias depois de oferecidas. Fora de templos, nos lugares onde pensamos habitar o sagrado – como matas e águas em movimento – repetem-se rituais sempre com oferendas de pedidos ou agradecimento. Troca. 

Morto o avô,  a família voltou para o interior. Restou ao então menino ver o pai replicar a profissão, agora trocando produtos agrícolas por dinheiro. Separava as notas por valor, ajeitava entre os dedos e delas fazia troco. O que recebia, guardava nos bolsos e parte usava em outras coisas de subsistência. Já não havia bondes. As mercadorias eram levadas em carrinho de mão e vendidas de porta em porta. Chega a doença e o filho de Raimundo troca a roça pela cama e a terra por uma casa na cidade.

Ao neto de Raimundo, hoje adulto, coube o sustento da sua família, sem bonde, sem roça.

Todos os dias, lá está ele debaixo de sol, dinheiro dobradinho à semelhança do avô e sincretismo religioso exposto ao redor, na praça em frente à igreja e ao lado do terreiro. É o agradecimento – de outros – a entes sagrados por graça alcançada que garante seu sustento material.

Oscilando entre sagrado e profano, troca-se.

Alimento do corpo, alimento da alma e o troco sempre ali, dobradinho entre os dedos de uma mão. Isso era antigamente. Hoje, a troca é feita por meios elerônicos e não vemos nem a cor do dinheiro.

Enquanto eu procurava uns trocados pra pagar a água mineral comprada de um carrinho – com caixa de isopor – um moço chegou, pegou o celular. O vendedor perguntou:

– PIX, débito ou crédito?

O neto do seu Raimundo não precisa mais separar o troco.

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