“Temos que mirar mais munição nas ações de governança e de regulação, e menos na questão do comportamento ou do consumo”
Italo Braga de Castro
Tem imagens que falam mais claramente que palavras. Não é o caso. Certeza, mesmo, é o descaso com o futuro, que de tão gasto e demorado, se tornou presente e, para outros, passado.
É nítido o custo social do deslocamento involuntário, mais ainda de crianças que, sem alternativa, seguem os pais. Infância não pode ser adiada, na espera de soluções apenas econômicas e individuais.
Estavam na terra que foi inundada – em nome do progresso –, partiram para outra classificada como latifúndio improdutivo. Bebês lá, crianças aqui. Adultos? Talvez em um bairro períférico, também sem estrutura para cuidar dos que nasceram aqui e foram embora, acompanhando os pais que… esse vai e vai não tem fim.
Quem estava primeiro na terra, continua: são indígenas. Isso se não foram exterminados por quem chegou depois – colonos – e se apropriou de grandes paragens. Não deu valor, até que outros – os afogados –, viram suas terras produtivas virarem mar.
Não cabe, em tão pouco espaço, reeditar Verissimo – o Erico – ou mesmo o Luis Fernando. Como sapo de fora, não vejo outra saída senão ficar à beira da lagoa, ou represa, coaxando.
Para alguns a espera de regularização dura até hoje. A ocupação de terras legalmente declaradas improdutivas já é uma senhora de meia idade e será de idade inteira, logo, logo.
Enquanto esperavam, fico imaginando se a vida seguia como nas novelas, romantizando a professorinha dedicada, as mães e avós fazendo lindas roupinhas de crochê para os menores e costurando, costurando, costurando. Ou nada disso: lidando na roça que garante a comida no prato e aproveitando as roupinhas doadas pela caridade das senhoras da igreja. A imagem estática da fotografia, contrasta com o movimento do tempo/espaço da vida. Seria muito interessante atualizar a foto, saber como estão as crianças do retrato, que aparenta ser da década de 1980. Alguns diriam que a foto é da década de 1970, como se fosse possível alguém andar na moda, vivendo como nômade, sem condições mínimas de infraestrutura, enquanto espera.
Esperam o que mesmo? Que as indenizações vultosas sejam pagas aos herdeiros dos colonos que tomaram a terra do povo que já estava lá – indígenas, talvez –, não deram conta de cuidar, mas ficaram ricos com as indenizações.
Declarado latifúndio improdutivo, essas terras seriam novo lar de quem foi desalojado pelas construções de usinas hidrelátricas e de outros que perderam as suas para os bancos.
De novo: em nome do que mesmo?

