Vidraças, vitrines e janelas do Google

O mundo é grande e cabe nessa janela sobre o mar

Carlos Drummond de Andrade

Seriam momentos de sonho ou lembranças? Foi ontem mesmo, mas lá dentro do sonho, faz tempo. Só tenho resposta certa  quanto ao lugar: Canal 2 em  Santos. Pensão Olimpia, 1960.

Foi durante passeio no maior jardim contínuo do mundo, em Santos SP, que uma pergunta martelava: cadê o Canal 2?. Da praia  tenho foto com a família, na nossa primeira viagem ao litoral. Só sei isso:  o nome da pensão era Olimpia, tenho certeza.

Olha ali a placa: CANAL 2. De carro, não dá pra contornar, o jeito é fazer um retorno mais à frente. Estava delirando de fome ou li mesmo “Restaurante Olimpia”? Vaga de idoso bem na frente. Será? Entramos. Pratos personalizados “Restaurante Olimpia, desde 1964”. Assuntar com os  garçons  sobre a pensão Olimpia? Fiz as contas. Não bate.

Melhor recorrer ao Google, que, sem existir naquele 1960, responde a tudo, ou quase; basta saber perguntar. Rodopio de informações, janelas, vidraças, mas nenhuma resposta coerente. Considerando os sessenta e cinco anos decorridos e a vaga lembrança normal, era de se esperar. Decepção? Que nada, fui sendo cada vez mais específica até encontrar “Pousada Nova Olimpia Santos”(José Menino) e não Pompeia como vi logo no começo. Explico depois, se sobrar espaço.

Como saber se a busca terminara? Vi a foto da escada interna de madeira, quase formando um caracol, por onde meus irmãos desciam como em um escorregador. Agitavam o ambiente sóbrio e levavam broncas bem humoradas da proprietária. Como era seu nome? É pedir demais! Fachada do sobrado, construções vizinhas, inútil tentar. Na foto, a escada no interior me deu a certeza de que o lugar é esse. O Google, diante da insistência,  encerrou a jornada: “não temos essa informação”.

Os arranha-céus com sua vidraças de ontem e de hoje nada revelam do seu interior. As pessoas, não vendo mais a dona da pensão, hoje pousada, não saberiam dizer. As lembranças vão e veem, as fachadas podem até nos mostrar desde quando existem ou estão alí, mas o interior, esse só com autorização do morador. Vale para pessoas também. Não abrimos portas e janelas de nossa casa ou da nossa alma ou coração, como queiram,  a estranhos ou inimigos.

Nas fachadas envidraçadas, colocamos cortinas. Ainda que no topo do edifício mais alto, somos vulneráveis a drones e publicações em redes sociais. Por outro lado, se não fossem essas bisbilhotices, não teríamos resposta a muitas coisas que vemos nas ruas. Por exemplo: “Prá que está tirando essa foto?” Nada demais, só preciso avivar uma lembrança e nem é desse lugar. Talvez desse tempo.

No movimento das ruas em meio a  vitrines, vidraças e veículos, o exterior é apreciado ou rejeitado. Revelando e,  ao mesmo tempo escondendo, a dor e a delícia de ser o que é, parodiando o poeta.   

Voltando: José Menino era bairro que, por tamanho ou conveniência foi desmembrado e nasceu  Pompeia, em homenagem à Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, cuja igreja ja existia no local.

Obrigada, Google  por me trazer até aqui – mesmo você não sabendo o nome da primeira proprietária.

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