Eternidade silenciosa

Há lugares na Terra em que quase nada se faz necessário além da oferta de rocha, vento e silêncio – o que é suficiente para o viajante inspirar, de forma profunda, em sinal de admiração. Você pode questionar: admiração do que, afinal? Ali não parece existir qualquer outra coisa.

Sim, existe algo que, mais do que admiração, merece reverência. Há rochedos que atravessaram, possivelmente, séculos de vida planetária, guardando dentro de si memórias que antecedem a qualquer narrativa humana. Nessas paisagens é preciso adentrar devagar, com cuidado e a pedir permissão. As paredes lascadas, as pedras que rolam vez ou outra são relatos de uma sobrevivência silenciosa, sem testemunho, como se o mundo antes de ser habitado, respirasse sozinho.

Essas paisagens áridas, a princípio percebidas como abandonadas, são espaços de resistência. Resistiram a tempestades, a glaciação e a silêncios prolongados. Muralhas esculpidas por milhares de quedas, chuvas e secas – já ouviram gritos de oceanos que não mais existem. Cada fissura guarda a história de uma época. Ali, nada se move com urgência; o que existe, persiste. E é aí que reside sua força e grandiosidade.

Em regiões assim, o homem não é protagonista. É uma presença possível, quase imaginada perante sua efemeridade – o pó que será levado pelo vento e não a montanha que o vento esculpe. A natureza, não. Esta ocupa o espaço com a serenidade de saber que se manterá quando não estivermos mais aqui. Isto não significa que a terra rejeite o ser humano – simplesmente o ignora. E, dessa forma, o confronta com a verdade fundamental da existência: ele não existe sem a natureza. Ela não carece dele.

A luz nesses cenários é a personagem que revela os aclives e declives, a geometria das formações rochosas. Destaca platôs, contrasta tons diferenciados do solo e das pedras, atravessa fendas sugerindo olhares curiosos a prescrutar o ambiente. Tudo é áspero, mas não hostil. A natureza, através dos filtros luminosos, sussurra: eu permaneço. Com ela, a luz, as avalanches de pó que dançam sobre as encostas são fotografadas pelo viajante.

Em alguns desses lugares, há vezes em que se percebe um pequeno traço humano, um sinal a lembrar-nos de nossa fragilidade. Ao viajante parece questionar: “o que te trouxe até aqui?”  Talvez a resposta seja essa inquietação que nos move desde sempre: o desejo de tocar o indomável, de sentir a origem sob os pés, de querer aprender com o planeta.

Fotografar esses lugares não é apenas registrar uma paisagem; é registrar uma relação. Uma relação entre o homem e o planeta, entre o olhar e o mistério, entre a nossa pequenez e a vastidão que nos envolve. É aceitar que existem territórios que não receberam cicatrizes da humanidade, e, talvez por isto, respirem mais verdade do que outros. O retrato de um mundo que segue seu curso indiferente ao homem, mas, que o instiga a procurar sentido em todo o seu silêncio. No silêncio e na solidão, a natureza devolve ao ser humano o lugar a que sempre pertenceu: o de mero viajante, atravessando a eternidade em passos breves.

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