Ser feliz com o mínimo…voltar ao mesmo lugar e já não encontrar nada, ninguém. Recebida pelos cachorros famintos que nem reconhecem mais o nosso cheiro.
As lembranças boas permanecem na memória. São muito poucas!
Chegar ali acompanhada da filha, era um consolo. Não sobrou nada. Pra não dizer nada, apenas uma parede, que vista de longe mostrava portas e janelas. O ciclone, tufão ou tempestade – hoje são vários os nomes que dão aos desastres climáticos – acaba com o pouco construído ao longo de anos. Se neste país a distribuição de renda fosse mais justa, talvez tivéssemos construído de tijolos em algum terreno melhor. Mas a verdade é que o clima está louco, desequilibrado, assim como o Zé quando chegava em casa depois de um dia virado, sem dormir, trabalhando em dois lugares. Brigava com meio mundo. Onde passa tufão, desaba tudo. Os que têm mais, compram carros de luxo, viajam pro exterior, têm mansão aqui, na serra, no litoral, mas na hora de reciclar o lixo, nem sabem como funciona. Aliás, nunca levaram lixo fedorento até a lixeira. As luzes da casa, sempre acesas, saem da peça e pensam que a lâmpada apaga sozinha. Água então… abrem o chuveiro e as torneiras e esquecem de onde ela vem. Roupas entulham os armários e na hora de doar, pensam milhões de vezes, quando não aproveitam as campanhas de agasalho pra se livrar dos biquinis, maios, camisetas e vestidos sem mangas que já passaram da moda. Ah! E tem aquelas que adoram encher as malas e vender no brechó, assim reciclam e ganham mais dinheiro. Na hora de pagar a faxina, é aquela choradeira. Nunca é o preço justo. O valor é sempre alto demais pelo serviço realizado. Essa gente não sabe o que é acordar cedo, andar quilômetros até a parada de ônibus e esperar ali mais de meia hora antes do amanhecer até o motorista chegar e, às vezes, dar sinal que já vem cheio. Todo mundo meio dormindo, se agarrando no cano e sendo segurado por aqueles corpos que te prensam, como lata de sardinha. Têm patroas que nem deixam tomar o café. Não pode comer o pão, nem a manteiga cara. Se quiser, leva o teu cassetinho. O almoço então, nem se fala. Permitido arroz e feijão. Os complementos só para os donos da casa e convidados que sentam à mesa, cheia de pratos e copos sobre a toalha de linho. Acho que eles esquecem que seus corpos são como os da gente, de carne e osso. Quando morrerem, vão acabar como nós. Pó ou cinza!
Mas a Terra se vinga. Agora tem até gente boa perdendo casa e família. E ainda não aprendem. Muita gente quer ganhar mais e mais. Pra quê? Todo mundo vai morrer um dia e não vai levar nada daqui.
Falam em precarização do trabalho e transporte público, investimentos sociais, melhorias na educação, saúde, saneamento básico e taxação de grandes fortunas… nem entendo bem o que é isso.
O que ainda tenho – minha filha – levo comigo e cuido sempre. Aprendo a viver a vida como ela é.
Ser feliz com pouco não é fácil. Mas um dia, sonho em deitar na cama de luxo perfumada, lençol branco de seda, dormir com o controle remoto na mão e acordar com alguém – sem avental – me chamando que o café já está na mesa e o carro na garagem me esperando.
Reduzir a desigualdade é um desafio diário.

