Coragem

Olho a fotografia da menina loira de fios dourados, sentada com outras crianças em frente ao barraco no acampamento em Encruzilhada Natalino. Me imagino ali. Certamente elas não tiveram uma infância como a minha, mas experiências de uma vida em comunidade e a luta por terra e casa rondaram meus dias. Conheci um pouco sobre a Encruzilhada durante a graduação. Me sensibilizava com certas imagens e notícias sobre o Movimento Sem Terra, desigualdades sociais e as ocupações. A cena muda e, rapidamente, vou pro meu acampamento.

Quando era guria, gostava de montar casinha, brincar de boneca, armar cabanas e acampar com a família. Dividir espaços e esperar na fila pra lavar a louça ou no banheiro coletivo pra tomar banho não eram problemas, afinal estar ali era sair da rotina, conhecer outras culturas e fazer novos amigos. Morar em uma barraca por quinze dias era só prazer. Amanhecia cedo e o anoitecer na rua tornava a vida misteriosa e mais alegre.

Havia uma estrada de areia que rendia uma boa caminhada, no meio de uma floresta de pinus até o mar. A saída daquele túnel e a vista do encontro da água esverdeada com o céu azul e branco e o sol iluminando a areia da praia, valiam o esforço. Sim, quando se é criança ou adolescente, caminhar por mais de um quilômetro é um grande empenho. Ainda mais carregando esteira, bolsa e garrafa de água. As cadeiras e o guarda sol eram peso para os adultos. Logo largavam as coisas e era uma corrida para o banho. Fortes ondas em mar aberto compunham um bom quadro para os surfistas. As crianças assistiam da beira. Teve até salvamento.  

Sempre fui apaixonada por cenários onde a mistura de cores, texturas e sons da natureza devolviam uma sensação de paz e aconchego. A imaginação abre outra página…

Passados alguns anos, lá estava eu de novo, em outro caminho de chão batido no meio das árvores, em uma floresta de eucaliptos. Assuntar sobre uma fotografia é muito mais do que enxergar o aparente. É visitar o além que está posto. Entro nas vias escuras, ouço o silêncio e sinto a energia que se movimenta.

A estrada ali, na minha frente, junto com o medo e o sobressalto. O que estava por vir eu nem imaginava, guardada pelas grandes árvores no caminho. Um ou outro barraco. Andava muito tempo até encontrar alguém e poder fazer uma pergunta sem ouvir resposta, na tentativa de conhecer a vida daqueles corpos passando. Talvez fosse um ensaio pra no futuro saber como seria o caminhar sozinha e ter coragem de seguir. A travessia sempre foi um desafio. Precisava dar respostas ao meu trabalho como estudante em meio a tantas disparidades e questionamentos.

– Como conhecer a vida sem encontrar as pessoas?

Enquanto os latidos dos cães e o canto das aves conversavam com os suspiros e os ritmos do coração, faltava o olhar direto e o som da voz daquela gente. Aquele verde todo ouvia meus rumores, oxigenava o sangue e respirava… como um pulmão.  

E a terra firme, sustentando o peso do corpo, guardava o que havia de mais sagrado, coragem!

– Um clamor.

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