Herança

Cada criança tem uma canção cantada para ela.  

As senhoras na Igreja, diziam que se parecia muito com seu avô. Principalmente o olhar. Os olhos claros cor de mel identificavam seu pertencimento àquela linhagem. E sabe-se o quanto é importante, e também é bom, pertencer. Mas há canções que remetem a bons prognósticos e outras nem tanto. Havia uma que era cantada quando lhe colocavam na janela para ver a mãe que saía para trabalhar. O que ela ouvia era que essa mulher deixava de lhe cuidar para atender os filhos dos outros. E assim foi por um tempo, o qual não se prolongou porque as palavras eram tão fortes e ditas com tanto poder que puxaram essa mãe para perto da criança novamente. No entanto, veio junto a frustração. Quando se ouve repetidas vezes uma canção, ela ecoa no seu andar mais profundo e acaba por fazer parte do conjunto de órgãos que habitam seu corpo. Talvez esse canto se apresente em determinadas e determinantes ações do seu percurso.  

Os olhos, herança genética, iluminaram o caminho de incontáveis desconhecidos. Ele era um poço de bondade. Saía com maestria das mais inusitadas situações. Dotado de um olhar sensível, admirador das coisas da terra, gostava de plantas e bichos. Sempre dispunha de uma “chave” para abrir as portas emperradas dos que lhe procuravam na busca de uma luz. Certamente soube ouvir. Saíam com um chá, uma muda e até ervas milagrosas confiando que daria certo. A serenidade e a coerência entre os atos e as palavras daquele homem eram exemplo naquela região. Andou e foi em busca do seu saber. Viveu para a família e também para sua comunidade, até virar nome de rua. Dedicou-se aos outros e imagino ter morrido realizado. Quando gurizote foi preciso coragem para acompanhar o irmão montado em um burrico, carregando uma trouxa de pano cada um, com pedaços de pão e frutas para se alimentarem durante o longo trajeto. O contexto em casa era conturbado e o padrasto nunca foi uma pessoa sensível ou cordial. E no coração de uma mãe, sempre há uma luz vermelha que acende quando a situação aperta para o lado de suas crias. Ela sentiu que seria melhor eles crescerem saindo de casa, mesmo que não fosse a época exata para o crescer.  

E no balançar do animal, os pensamentos receberam acolhida. Ao chegarem na nova casa arrumaram logo um espaço para eles.  

A vida é assim. Quando algo novo cai em seu colo, senta e deixa vir a canção mais profunda que deseja ouvir. A da mãe que saiu para cuidar dos filhos dos outros ou a dos olhos claros cor de mel, herança da bondade do avô. Essa crença, intuição ou fé que cada um carrega, não está à venda.  

Ela está (aqui) no peito.           

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima