Meu Vazio

O coração acelera, parece faltar o ar e a imaginação voa quando leio as mensagens recebidas no telefone, há quase três mil quilômetros de distância além das fronteiras, em direção ao norte do país. Não penso. Meu instinto é contatar quem estivesse mais perto e, imediatamente, montar uma equipe de apoio. O sinal é ruim, afinal a localização não é privilegiada, dependendo do ponto de vista. Naqueles exatos minutos a vida passa por um fio. A água barrenta avança em uma velocidade inacreditável. Toca os pés, vai subindo pelas canelas e gela os joelhos de um corpo exausto, sentado em uma das cadeiras, cor de mel, na cozinha. Não sabia até onde seria visitado daquela vez. Ela nunca quis entrar na sua casa.  

Há quatro anos era o único habitante daquele pátio. O joão de barro, o sabiá, o canário e o azulão, lhe visitavam diariamente. Algumas noites passavam um ou outro gato e para esses ele já tinha uma surpresa pendurada. Não fazia questão deles por ali.  

No entanto, naquela manhã, ainda sentado, atende o celular. Era sua neta, há cento e dezesseis quilômetros dali, e com uma voz apreensiva lhe pergunta como ele está. Ela já ouvira as notícias catastróficas da água avançando nas ruas daquela pequena cidade. Ele, sem conhecimento da dimensão dos fatos, comenta das pernas molhadas e das cadeiras estofadas já em cima da mesa. Conta que telefonara para o filho, sem êxito. Posterior à chamada, a corrente de ajuda, mesmo que de muito longe, tão rápida quanto à correnteza da água, chegou em tempo de lhe resgatar. Ela já batia nos quadris e as pernas fracas não davam conta da lama toda. Sair e deixar para atrás aquela história inteira não estava nas páginas em branco da sua imaginação. Os corações distantes pulsavam sem parar.

A visita era forte, arrebatadora, de cor marrom lamacenta. Cheirava muito mal e entrava sem pedir licença. Invadia qualquer espaço e não estava sozinha. Trazia consigo tocos, telhas, canos, plásticos, antenas e troncos de árvores. Passavam correndo alguns calçados, baldes, mamadeira, boneca, carrinho e panelas. Filme de terror. Quem estava ali, viveu a cena e atuou de forma brilhante. Os que se encontravam fora do palco, assistiam desassossegados e impactados, paralizados com os fatos e ausência de perspectivas para alterar aquele caos. Eram vidas, histórias e muitas construções. Não era só uma casa. No entanto, a visita não poupou ninguém. Nem mesmo os que estavam viajando. Bagunçou tudo. Rompeu elos e tirou tudo do lugar. Mudou a configuração da família, criou vazios. Destruiu álbuns de fotografias, desapareceu com documentos, tingiu de barro as louças da herança e as toalhas da mesa. As telas pintadas em tinta à óleo, foram arrancadas das paredes e só ficaram nas memórias. No jardim, a cadeira firmou seu espaço e quem sentar nela vai ter o quê contar. Ali a família cresceu. Aprendo a boiar enquanto navego sobre a superfície. Foi um tempo bom. Teve caça aos ninhos, ovos pendurados nos galhos das árvores, banhos na piscina de plástico e brincadeiras na casinha de boneca, pintada de vermelho e branco. Em frente à churrasqueira, teve pizza, pipoca e roda de chimarrão, além da carne de domingo. A gaiola do louro “que queria café”, andava como atrativo dos netos pela grama. Mas ele, a visita não conheceu.

Contudo, no meu vazio, registro as memórias e me permito andar.

Naquela casa teve vida e morte.  

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