História conhecida. Um menino, terceiro filho de uma prole de quatro. O único que demonstrava prazer por uma das atividades mais comuns entre as crianças da época: jogar bola com os amigos. A música era permitida, mas a possibilidade de aprender a tocar violão era sempre negada, tendo como justificativa ser um instrumento “muito popular”. Violino era considerado erudito, porém não estava na lista daquele guri. Cansado de tentar mudar os pensamentos da mãe, desistiu de tocar qualquer coisa. Suas tarefas além dos estudos eram dar comida aos bichos, limpar o galinheiro, empilhar lenha para abastecer a caixa ao lado do fogão e varrer as varandas da casa. As três. Tristes registros para uma infância cinzenta, podendo ter sido feliz como a bola de futebol.
Chegou o aniversário. Não havia festa, pois o dinheiro era curto para alimentar mais bocas além das famintas daquela família. A visita inesperada foi da madrinha. Ela, sim, lhe conhecia muito bem e era sensível o bastante para ler seus desejos mais secretos. Entregou-lhe uma caixa embrulhada em papel colorido, aliás pacote muito bem feito. A cola do papel era tão boa que impedia o acesso ao tão almejado e curioso presente. Enfim, abrindo a caixa avistou um par de chuteiras que lhe convidavam para sair correndo dali ao encontro dos amigos e da bola de futebol. O brilho no seu olhar saltava, iluminando toda a cozinha da casa.
Era na cozinha que as coisas aconteciam. As comidas eram preparadas no fogão à lenha que desde cedo já dava o ar da graça para o primeiro que abria a porta. A máquina de costura, de pedal, ficava embaixo da janela, entre a cadeira de balanço e o rádio no balcão. Esperava a hora em que as mãos se liberavam para iniciar as primeiras costuras de um modelo que ainda não havia ido à prova. No balanço de palhas trançadas e grandes arcos, a caçula, esperta e atenta, imaginava estar em uma praça e se divertia entre os retalhos, alfinetes e agulhas. A música no ambiente vinha do rádio, cujo som era abafado por peças de tecido ou roupas que caíam sobre ele. Ali aconteciam as refeições, a lavação de louça e as conversas entre costuras. Anoitecia e as chuteiras precisavam descansar e dormir, não podendo sair de dentro daquela caixa. Enquanto a imaginação ficava acordada e esperava o amanhecer para ocupar o lugar de destaque no campo de futebol.
O cheiro de café passado e pão tostado na chapa, penetrava entre as paredes avisando que amanhecia. Mas antes da porta se abrir havia uma escada. O menino passou e olhou para o alto. Estava lá, quase no último degrau, sua caixa fechada. Na cozinha o silêncio já havia chegado, assim como as bocas famintas que cumpriam a rigor as regras da casa. Porém, o menino, sem fome de comida, mas esfomeado pelas novas chuteiras, pediu para experimentá-las. Sem chances. Elas permaneceriam guardadas no acesso mais difícil da escada, onde todos já sabiam que não poderiam chegar.
Naquela mesa, onde se matava a fome, nascia a raiva. Com ela chegava a disputa pelo poder, se apresentava a rejeição, a injustiça, a preferência e o domínio pelo espaço.
A cozinha tinha nome. Ela comandava, não só as panelas. Tecia as histórias com seu fio grosso e resistente.
Enquanto costurava para os de fora, remendava com retalhos os furos dos seus.

