Não é tarefa fácil usar as palavras certas.
Fé. Sentimento? Crença? Esperança? Uma convicção? Fé é perdão? Espiritualidade.
A cabeça não descansa. Funciona o tempo todo. Andando, varrendo, lavando roupas, cozinhando, ouvindo música. Não escapa da minha mente a imagem em preto e branco. Retrata o interior de uma igreja, onde no altar há uma pintura dos povos originários, provavelmente catequizados pelos jesuítas. Será que eles ainda têm fé?
Bloco de notas é melhor porque não têm linhas. Nele cabe tudo. Todos os pecados. Pedidos para todos os santos, promessas feitas e também as não cumpridas. Registro de tarefas, lista de filmes, livros e frases. Serve de baú para guardar todos os fantasmas que me perseguem. Sim, convivo com alguns. Eu fiz. Eu tive coragem, naquela noite enquanto ele dormia e meu filho também. Não queria ver a barriga crescer. Podia ser de outro e eu não suportava as suas agressões. Já sofro o bastante cada vez que chego em casa e vejo a garrafa sobre a mesa. As pernas trôpegas vêm me receber e os braços suados tentam me agarrar. Os olhos me engolem assim que abro a porta. Dessa vez consegui me livrar.
A moça da farmácia entendeu meu olhar e vendeu o que eu pedi. Talvez ela tivesse fé.
O coração dispara quando lembro da cena da menina, oito anos, andando sozinha pelas ruelas para ir comprar um pão na padaria da esquina. Pão que alimentava toda a família, pai, mãe, vô e irmão. A esquina estava longe. Entardecia. Na sua direção um homem suado, parecia sedento e faminto. Carregava um balde na mão esquerda e com a direita agarrava fortemente seu braço, lhe encurralando no beco à frente. Ali ela caiu.
Emudeceu.
Acordou com muita gente a sua volta e uma poça de sangue no chão. Naquele beco outras meninas caíram, mulheres se arrastaram e gritaram. No muro havia uma seta e uma frase pintada com tinta vermelha – Beco da Morte.
Que vida era aquela? Mais uma criança? Nem o pão na padaria eu pude comprar. Depois daquele dia eu vivi presa. Presa pelo medo. Algemada a um passado que nunca deixou de ruminar dentro deste corpo seco.
Caminho pelas ruas. Meus ossos pesam, assim como minhas memórias. Avisto uma Igreja e entro. O silêncio toma conta de mim. Flutuo naquele pequeno espaço sagrado, gelado e com cheiro de orvalho. Olho para a cruz que parece um convite.
– Senta!
Faço minha oração e tento me libertar.

