Intraduzível

*texto baseado no poema “Traduzir-se”, do maranhense Ferreira Gullar – Revisão 28/07/2025

Quem sou eu? Um todo invariável e conciso? Não, sou pedaços. Alguns conheço bem, outros nem tanto. São partes de partes, fragmentos de um alguém que, assumo, não pode se definir como essencial, ou mesmo incomum, longe de mim. Não vivo grandes aventuras ou escaldantes romances, sequer produzo escândalos dignos de muita fofoca. Sou o quê? Nada demais, o que, convenhamos, é bom, saudável e seguro.

Uma parte de mim não muda. Outras sim, já que às vezes convém. Me altero, amiúde, o que pode causar alguns arrependimentos não imediatos; mas que vem depois, com a cabeça no travesseiro. Outra parte de mim mal se alimenta: janto o que sobrou do almoço, não por economia ou preguiça, é falta de talento gastronómico mesmo. Meu apetite, cheio de frescuras e dissabores, tem sede de outras coisas além do repasto, como querer fazer tudo o tempo todo, ao mesmo tempo, não perder tempo e ganhar tempo. Essa parte te espanta? A mim também.

A parte de mim que é só vertigem escreve boas bobagens e linhas soltas, semana sim, semana não. Outra, que busca outra linguagem, maior, melhor, mais própria, falha miseravelmente. Gosto da parte que delira, ela traz um equilíbrio diante de outra, a que pondera. A parte social não é permanente: ao vivo se excede, de repente, mas não é de todo desagradável. Nas redes, essa parte fala, se cala, foge da estranheza, e vira solidão, mesmo cercada de muita gente.

Uma parte de mim é todo mundo. Outra não é de ninguém, só minha, feita de meus pedaços, que compartilho com poucos. São partes seguras, num cofre de poucos segredos, guardadas num poço infinito, profundo e sem fundo.

Complicado? Eu sei. Entender estas partes, e outras partes, não é uma questão de vida e morte. E está tudo bem. A verdade é que, diante do eu, de mim, não sei me traduzir.

Serei arte?

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