2025 (ou Roda viva)

É cedo, manhã de domingo, e ele logo sai para trabalhar. No banheiro, o espelho devolve sua imagem distorcida e apresenta por escrito seus dados de saúde. Um alerta é emitido, um ícone pisca. Ele ignora, sacode a barriga e pensa se deveria ter aceito aquela escala de trabalho 7×0. Resigna-se, num muxoxo. Afinal, a empresa precisa dele e sua lista de futilidades a adquirir é extensa.

Na sala, a esposa recebe amigas, as mesmas de sempre. Durante a manhã e parte da tarde, ela fará chá com biscoitos impressos na hora e ouvirá propostas de novos cosméticos e delineadores, experimentará cremes renew clinical e perfumes, além de produtos que deformavam o rosto para melhor. Solicitará amostras grátis de tudo, e dirá que vai pensar – talvez compre algo, talvez não. No quarto, o filho adolescente dorme sentado diante do computador, o rosto sobre o teclado. Ele está bravo com o pai, que não quer lhe dar um cachorro biônico. Impossível, fora do orçamento. Se ao menos fosse uma ovelha elétrica, ele propôs. Recebeu como resposta um “esquece” lacônico. A filha influencer, já no modo digital, está na sala fazendo caras e bicos e tirando selfies. Apesar da pouca idade, acumula bitcoins vendendo joias, jogos e dicas de “como conviver com pais fracassados” num videoblog que ela mesma criou. O pai, orgulhoso, faz um aceno e tenta um gracejo. Recebe um olhar cheio de repreensão e maquiagem e desiste. Na volta ele tentará um beijo, um abraço, as pazes com o filho, algo do tipo.

Eles são uma família funcional. Mais do que cidadãos, são subscribers de inúmeras plataformas de entretenimento e relacionamento, o que os torna, de certo modo, relevantes. Gostam de maratonar séries e amam delivery de fast-food 24 horas. Leem pouco, mas curtem textos irrelevantes e comentários a seu favor – felicidade é ser reconhecido pelo algoritmo! Ademais, acham que 280 caracteres são, sim, mais do que suficientes para expressar opinião, especialmente sobre assuntos que não conhecem.

No campo espiritual, estão logados na Agnósticos do Chip Celestial, cujos cultos – todos online – eles acessam via qr-code impresso no dedão. Mas respeitam todas as religiões, desde que gerem mais views do que améns. Na política, preferem não opinar – por contrato, a empresa do pai lhes indica o voto, usando uma IA própria. Pragmáticos, acham que coisas secundárias como desinformação, guerras e meio ambiente são apenas circunstanciais, algo distante que pode ser ignorado num simples apertar de botão. Se daí surge um fato interessante, talvez mereça um repost, ou uma menção num futuro #TBT. Geralmente não.

A caminho do trabalho, o pai, dono dessa bolha toda, está parado diante de uma sinaleira que parece emperrada no vermelho. Na volta do barco é que sente/O quanto deixou de cumprir – a música no rádio, ao menos, é agradável. Dali até o prédio da empresa, câmeras de vigilância observam. Sabem tudo, sua localização, seus erros, acertos, seus dados mais íntimos. À sua volta, carros cruzam. No céu, drones revoam. Um mini dirigível desfila um banner enorme, propaganda enganosa de uma bebida alcóolica sem álcool, a mesma que ele bebe agora: VIVA O MOMENTO!

No painel do carro, que, assim como o espelho do banheiro, é conectado ao celular que recebe dados via nuvem do seu prontuário em tempo real, um novo alerta é emitido. Mais grave agora, tão vermelho quanto o sinal de trânsito. O ícone de coração pulsa, emperrado, descompassado.

O pai, mal respirando, tenta manobrar, mas o veículo é autônomo, e ele não leu o manual. E perde-se o controle, a direção, tudo bate, tudo gira, roda, mundo, roda gigante…

Da contramão, o corpo vai direto para os trend topics. Se o algoritmo permitir – que felicidade! – talvez fique lá por uns três ou quatro minutos. E nada mais.

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