Ed, a Morte o caso das calcinhas

Uma crônica em homenagem a Luis Fernando Verissimo e seu personagem Ed Mort

Mort. Ed Mort. Detetive particular. Está na plaqueta. Especialista em adultério de bairro e mistérios sem glamour, nunca resolvi um caso que não terminasse em vergonha ou gastrite. Mesmo assim, sigo investigando, já que o aluguel vence todo mês e eu não tenho mais a quem culpar.

A noite era só tempestade. Chovia mais dentro do meu sapato do que fora dele, e eu caminhava pelas ruas com a elegância de um pato gripado. Tinha sido contratado por uma senhora nervosa, daquelas que ainda usam bobes e acreditam em signos, para investigar um roubo em série de calcinhas – a maioria tamanho GG, com renda, florzinha e pouca dignidade. Cheguei ao Madame Kiki Sex Shop, local do crime, no ponto G, digo, na hora H. A música que tocava na loja era ruim, a cantora tinha voz de asma, semelhante à minha. Ali, entre vibradores com nome de semideuses e bonecas infláveis com mais personalidade que meu último affair, avistei o suspeito. Era um sujeito gordo e esguio, de passos leves e alma tão suja quanto a camiseta. Estava com meia arrastão na cabeça e levava uma sacola plástica cheia de calcinhas que seriam vendidas num bacanal – menos as tamanho GG, que eram de uso próprio. Tentei sacar meu revólver, mas puxei a bombinha de asma por engano. Foi quando tudo ficou vermelho. Ou rosa, já que a visão do sangue se misturava com a luz do refletor em forma de pênis que piscava no canto. O golpe foi certeiro. Caí entre dois potes de gel de menta e uma estátua de silicone do Thor, pelado e com o martelo erguido. Ao tentar levantar, vi, presa na mão esquerda, uma calcinha com zíper e de odor forte que, supus, era cheiro de sedução. Tudo girava. A loja, minha cabeça, o vibrador que alguém esqueceu ligado. Foi quando ela apareceu, e falou comigo.

— Morte. Edna Morte.
— Edna Morte?
— Não, é brincadeira. Só Morte mesmo.

Ela riu, mostrando um humor duvidoso e dentes sem gengiva. Era sexy de um jeito esquelético, usava peruca loira, vestia um blazer preto e o perfume era de incenso ruim. Tinha a expressão de quem já viu todos os filmes do Adam Sandler, e por isso perdeu a fé na humanidade.

— Mort. Ed Mort. — murmurei, com o pouco fôlego que me restava.
— Eu sei seu nome, Ed. Sei dele há tempos, desde que o Seu Luis te criou.
— Foi ele, o Verissimo, que te enviou? Chegou a minha hora?
— Faz tempo. Mas eu me atrasei, muito trânsito no purgatório.

Tentei argumentar, claro, não fui criado pelo LFV para desistir facilmente. Joguei todas as cartas: que eu precisava ficar vivo pra pagar o aluguel; que o ladrão de calcinhas era reincidente e o mundo precisava se livrar dele; que ainda não terminei de ver Breaking Bad. Até sugeri um encontro no Bar do Firula, onde eu podia pendurar – Madame Kiki não me adiantou nada, nem pro guarda chuva. Edna, digo, a Morte, apenas me olhou. Não com raiva, nem com piedade. Com tédio.

— Ed, você já morreu. Só vim oficializar.

E então tudo apagou. A luz, o vibrador, eu. Parti com a calcinha ainda presa na mão, e sem receber. O ladrão escapou, e ainda levou um quadro com o espartilho da Madona exposto na parede. Era falso, claro. Madame Kiki não tinha jeito.

Me fui, enfim. Mort. Ed Mort. Ex-detetive particular. Está na lápide.

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