Carta ao Tempo

Caro Tempo,

Espero lhe encontrar bem. Escrevo estas mal datilografadas linhas para tirar uma dúvida: por que tanta correria? Você não se cansa? Não sente vontade de sentar um pouco, cruzar as pernas, ver um filme?

A propósito, assisti “Tempo”, aquele seu homônimo, do Shyamalan. É meio que sobre uma praia onde você se descontrola e engole vidas inteiras em poucas horas. Ok, não é bem assim: no fim tem mais um daqueles plot twist do M. Night e ele inventa uma desculpa meio esfarrapada pra te isentar de culpa. É ficção, tudo bem, mas confesso: saí do cinema com a sensação de que aquela praia existe.

Metáforas cinematográficas à parte, você voa, Tempo. Estica os dias, encurta as noites e, quando a gente tenta aproveitar, você já foi. E o pior é que nunca avisa, só vai. Dizem que você é justo, que passa igual pra todo mundo, mas na minha opinião você é cruel e seletivo: em alguns, parece não se revelar; em outros, pesa e age rápido. Vivemos e pensamos como se estivéssemos sempre no controle, o que é errado; mas você bem que poderia espichar um pouco nossos instantes, antes de levá-los embora assim, do nada. Ou pelo menos nos ensinar a perceber que, diante de sua teimosia, precisamos viver o agora – tá, eu sei que é um clichê, mas dá um tempo, Tempo!

Não te peço que pare, já entendi que isso vai contra sua natureza, que você tem um compromisso antigo e inexorável com o movimento e tal. Talvez até você não tenha pressa, talvez sejamos nós, desatentos, que não entendemos o que você é: um assaltante silencioso que invade nossas moradias. E que viver sem alarme pode ser a melhor forma de te aproveitar, quem sabe até te perdoar, ou perdoar a nós mesmos, por tudo o que passou em branco antes da nossa impreterível partida. Sei disso tudo, você também sabe. Eu só queria que fosse um pouco mais gentil, meu querido.

Bom, já tomei muito de você, Tempo. Deu pra notar que faço muitas perguntas, mesmo sabendo que algumas não precisam ou nem tem resposta, né? Embora eu reclame em alguns momentos (tipo agora), sei que basta respirar fundo e, às vezes, te ignorar um pouco – mas não muito.

Enfim, leia essa carta com calma e, quando der, responda. Neste caso (diferente de você sabe quem), eu não tenho pressa.

Take it easy, take your time!

Com carinho,
Eu.

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