Sonhei que estava sendo vigiado. Nada de novo, há dias venho pressentindo que meus sonhos e realidades têm plateia. O curioso é que, ao contrário dos sonhos habituais, pesadelos, talvez, este não era um loop surreal, não tinha abismos ou nudez involuntária em meio a multidões. Havia só eu… e um zumbido, discreto, pedindo atenção, como o ruído de uma respiração que não era minha.
Acordei dentro do sonho, disposto a investigar. A casa, nada engraçada, era uma mistura da minha, na infância, com a atual, mas com móveis tortos e corredores que não obedeciam à geometria. Havia luz por todos os lados. Muita lâmpada acesa. Sinal óbvio que eu estava, realmente, num sonho.
Encontrei a primeira câmera escondida atrás do espelho do banheiro. Era uma lente minúscula, cravada no olho esquerdo do meu reflexo. Fiz menção de tocar, sorri amarelo para ela e fiz careta – recebi de volta um riso distante e abafado. Desconfiei que fosse a vizinha da direita, aquela que nunca perdia uma fofoca sobre a vida alheia e morava num aplicativo de mensagens. Não dei atenção. No mundo real, ela vive com a cortina entreaberta e o juízo mal apurado. No meu sonho, parece que se aposentou da janela e resolveu acompanhar só minha vida. Vai morrer de tédio.
Na sala, outra câmera, dentro do abajur ligado, herdado da minha falecida mãe. Ali, no entanto, não era vigilância: era vigília – e saudade. Encontrei outras, manejadas por amigos que se foram e que, no seu plano superior, lateral ou oblíquo, continuavam me olhando, cuidando para eu não tropeçar nos mesmos buracos e não exagerar nas certezas, nos julgamentos e na bebida. Tive vontade de chorar, mas segurei. Tinham mais cômodos em mim para revistar.
No corredor, onde o tempo se dobra e o teto é feito de páginas de livros comprados e não lidos, achei várias câmeras. Diferentes, elas giravam, sussurravam e vibravam como moscas ansiosas. Senti um arrepio, quase acordei. Eram os instigadores, de tocaia, prontos para anotar meus erros e desacertos. Casos mal resolvidos, arrependimentos, chefes autoritários, egos. Fatos e versões de mim que nunca foram embora. Câmeras feitas de julgamento, de censura indisfarçada e de auto piedade. Mostrei-lhes a língua e saí.
Quando entrei na cozinha, notei algo no micro-ondas. A tela piscava não com números, mas com sugestões: Você sonha com tristeza, que tal comprar um vinho? Já assinou seu streamming do dia? Conectada a ela, tinha uma câmera que ganhei numa promoção, de alguma big tech cujo nome não me lembro. Sei que ela não tinha rosto, nem coração, mesmo assim entreguei minha vontade, compartilhei meus dados, desejos e medos. Confessei minha solidão noturna. Agora estava tudo ali, exposto, ranqueado por algoritmos invisíveis. Atrás de um sonho bom, me impus o pesadelo.
Voltei para o quarto. Lá, agora, estava a maior câmera de todas, pendurada no ventilador de teto. Ela girava, lentamente, como um olho de um deus preguiçoso qualquer. Um globo ocular com logotipo, uma propaganda da fé. E piscava com desdém. Não me ajoelhei. Virei os olhos e me vi noutra câmera, sendo olhado por mim. E entendi que, talvez, seja isso que a gente faz quando sonha: se vigia. Se permite. Se arrepende. Mas no sonho, ou no pesadelo, virar o rosto e mostrar a língua é fácil.
Acordei. O teto do quarto era só teto. O espelho do banheiro, só espelho. Na sala, o abajur estava desligado. Ao abrir a geladeira, porém, ouvi um zumbido, discreto…

