Dora é professora aposentada e escreve cartas para analfabetos. Sentada num canto da movimentada estação Central do Brasil, no Rio de Janeiro, ela traduz sentimentos e saudades em palavras, para pessoas que não podem fazê-lo sozinhas. E cobra por isso. Às vezes, ela nem envia as cartas. Afinal, esperança, como tudo na vida, também tem seu preço.
No filme Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, o Brasil, além de cenário, é um protagonista áspero e real. Dora, interpretada de forma pungente por Fernanda Montenegro (indicada ao Oscar com justiça), e o pequeno Josué (Vinícius de Oliveira), sentem na pele essa realidade, vivem o cenário, e protagonizam um road movie emocional e simbólico que atravessa estradas, estados, sonhos e feridas.
O enredo parece simples, mas não é: uma mulher amarga e cínica, um menino órfão e a busca pelo pai que pode (ou não) existir em algum lugar no sertão nordestino. É um filme sobre encontros – com o outro, com o país, consigo mesmo. É, também, sobre aprendizado. Dora, que começa como alguém acostumada a mentir, a esconder e a sobreviver, no fim se encontra mais humana, mais aberta para um mundo que, de alguma forma, é o destinatário de suas cartas. O Brasil, que começa opaco e indiferente, revela-se múltiplo e cruel, mas ao mesmo tempo generoso e acolhedor. A câmera de Walter Salles não glamoriza a miséria, mas também não a ignora. Apenas mostra o abandono, a solidariedade e a busca por pertencimento. E este roteiro, de bem traçadas linhas, emociona.
Mas quem ainda escreve, ou pede ajuda, para escrever uma carta? Ainda dá para existir essa função? O que sobraria, hoje, para quem faz da palavra alheia seu sustento? Ser ghostwriter de posts nas redes sociais? Nestes tempos em que se dispensa até a boa gramática – “escreve-se” do jeito que quer, com erros, abreviações e emojis – fazer-se entender parece suficiente, ou talvez nem isso. Pensar na função da personagem de Fernanda é quase cair num paradoxo: escrever é preciso, ou basta enviar a mensagem?Quem recebe – se recebe -, que se vire para entender.
Carta? Ninguém quer, ninguém espera.
O que é uma pena. A carta tem um tempo que a mensagem instantânea não tem. Exige concentração, pausa, cuidado, espera. Dora, mesmo com toda sua dureza, sabia disso. Sabia que cada palavra escrita é uma tentativa de presença, mesmo ausente. Temos a urgência de sermos escutados, lidos, acolhidos, não importa como. A carta é um pedaço de alguém tentando não desaparecer, tentando selar seu registro, se dizer vivo. A tecnologia, um gueto dos nossos tempos, ajuda nisso, sem dúvida. Mas também segrega.
Central do Brasil é um filme que não envelhece, e continua necessário. Afinal, temos aqui um país que segue precisando de alguém que o escute, o descreva e conte sua verdadeira história. Assim como cada um de nós.

