Das coisas que importam, das vãs e das kombis

Ao terminar de assistir “Pequena Miss Sunshine”, filme de 2006, um pensamento pode vir à sua mente: Ainda bem que minha família não é tão esquisita assim. Será?

A obra é um road trip peculiar e uma tragicomédia ácida, protagonizada por uma família que parece ter sido montada com peças trocadas, e de diferentes procedências. São tipos que não se encontra facilmente por aí, mas que, se comparados com alguns da “vida real”, podem até ser bem razoáveis.

De um lado, temos Olive, uma garotinha de óculos e barriguinha saliente, cuja ideia de beleza foi moldada por concursos que misturam tutus e maquiagem adulta, numa espécie de circo infantil legalizado. No seu entorno, o pai, que vende um programa de autoajuda falido, vê a própria vida desmoronar; a mãe, que fuma nervosamente, tenta manter a paz doméstica como se vivesse numa trincheira; o irmão adolescente, roqueiro e niilista, fã de Nietzsche, fez voto de silêncio até conseguir se tornar piloto da Força Aérea; o tio gay, recém-saído de uma tentativa de suicídio, é especialista em Proust e em mágoas não resolvidas. E o avô, uma espécie de treinador da menina, é viciado em pornografia e heroína. Com a notícia de que a pequena foi classificada para um concurso de beleza infantil, saem todos numa kombi amarela e semi-esfarelada rumo à Califórnia, só para que Olive possa brilhar sob as luzes duvidosas de um palco duplamente ridículo – pelo evento em si e pela cultura que o alimenta. Na viagem, eles dificilmente concordam em algo; discutem, gritam, batem portas, esperneiam. Ainda assim, quando chega a hora da apresentação final da caçula – um número de dança tão constrangedor quanto libertador – acontece o que não se espera.

Do lado de cá, temos outras famílias e seus membros, que compartilham a senha do wi-fi mas não a mesa do jantar – que dirá uma viagem de três dias. O pai comunista que se casou com a mãe reaça; o tio que acredita em reptilianos; a prima lasciva que se finge de vegana; o avô que só ouve rádio AM e acha que o país melhorou em 1964; o irmão que virou coach de produtividade quântica e louva o Deus Mercado. Cada um no seu canto, jurando que suas verdades sãos as mais verdadeiras. E assim a viagem, que deveria ser uma aventura conjunta, às vezes termina no meio do caminho, por conta, tão somente, de um reles pneu furado. O pior? A chave de roda está ali, onde sempre esteve.

Ou seja, preste atenção à sua mesa – disfunção aos olhos dos outros é refresco.

Depois disso, siga a dica: para sobreviver à sua própria tragicomédia, talvez a resposta não seja o diálogo per se, a terapia de grupo ou – muito menos – o distanciamento. Às vezes, o que salva é só o esforço coletivo de empurrar a vã convivência até o próximo posto, mesmo que não se concorde sobre o destino. Afinal, esse nosso mundinho, cada um deles, anda precisando de menos jantares tensos e de mais danças constrangedoras. Seja lá qual for o palco.

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