Quando o céu resolve argumentar

Na infância, em noites de tempestade, de mãos dadas com o medo, eu entrava na caverna embaixo da cama. Nada mais assustador que raios e trovões. Minto. Assustador mesmo era a voz de minha mãe a chamar – Iara Teresinha! O uso do meu segundo nome anunciava bem mais que uma tormenta, pois ela, a tormenta, se vai.

A história da civilização apresenta, na ideia de alguns pensadores, que a criação de divindades se deu a partir da ignorância humana frente a grandiosidade do universo. Inclusive a fé e a crença em Deus podem ser produtos da ansiedade da humanidade num tempo em que ela não conseguia explicar esse universo.  Na mitologia grega, o trovão foi interpretado como a ira de Zeus, sendo o raio sua arma mais poderosa.

A incapacidade de compreender as forças da natureza levou o ser humano a se colocar de joelhos frente a elas. Diante do terror do desconhecido, nascem as religiões, denominadas de acordo com o berço de sua origem, e seus dogmas – paredes que buscavam aprisionar mentes, dificultavam convívios sociais, criavam verdades inquestionáveis. Conjunto de palavras doutrinadoras que, a quem as refutava em nome da razão e do conhecimento científico, poderia ser estigmatizado como herege, e com isto, até receber sentença de morte.

Com o passar do tempo, em lampejos de entendimento, o homem foi construindo conhecimentos, elaborando narrativas em busca de compreender a natureza do mundo a que pertence. Quanto mais o conhecimento avançou, mais os deuses se distanciaram. Doenças que no passado acreditava-se serem causadas por espíritos, tem-se ciência de que são originadas por vírus e bactérias. O trovão provocado no passado por divindades, hoje é explicado por Leis da Física.

Eu também usei o tempo para calar e afastar o medo em noites de tormenta. Meus joelhos agradecem por não tocarem o chão em sinal de submissão ao que não compreendo, pois o conhecimento científico tornou-se minha tábua de mandamentos – são bem mais que dez, e crescem. Diariamente.

Ao vislumbrar luz do relâmpago, tenho plena compreensão: da pequenez do ser humano na imensidão do universo; o raio não é mensagem – é curto-circuito.  O barulho do trovão anuncia que estou viva por acaso, entre forças que desconhecem e nem se importam com minha existência. A natureza, indiferente à razão humana, segue sua tempestade. E o homem, frágil expectador, continua a chamar de “milagre” o que é apenas física e de “mistério” o que é apenas a ignorância em boa embalagem.

Há quem tema o trovão. Hoje, eu o invejo. Ele diz o que pensa sem hesitar. É o universo discutindo consigo mesmo – e, seus argumentos parecem sempre prevalecer, ganhando a briga. Penso que o mundo sempre foi movido por tempestades: as do céu e as da mente. Confesso que há muito prefiro as do céu.

Elas, pelo menos, passam mais rápido do que passavam as da mente da minha mãe.

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