Castigo tatuado

O castigo, na infância, era como feijão no prato. Com frequência, lá estava eu, sentada, olhando a parede para refletir sobre o que havia incomodado meus pais. Sim, eu pensava por que o meu comportamento provocava a ira deles, e não sobre o que eu tinha feito. Difícil entender que desagradava a eles, por exemplo, soltar os pássaros do meu pai do grande viveiro. Afinal, na escola me diziam que pássaros nasceram para voar e, aqueles do viveiro, mal batiam suas asas. Outra situação que lembro era sobre os coelhos. Viviam separados em gaiolas e eu adorava colocá-los juntos. E, claro, no pátio onde havia a horta cultivada por minha mãe. Nos livros de história, eu lia e via coelhos a correr, pular, sorrindo ao encontrar hortaliças – os da minha casa nunca sorriram. Enfim, foram horas infindas, em frente a parede, navegando no porquê dele – o castigo.

Livros e fotos. Foram guardiões da minha imaginação, curiosidade, desejo de exercitar a liberdade, vivenciar e entender diferentes espaços geográficos. Com eles viajo ao folhear as páginas e recebo inspiração e informações para realizar minhas incursões mundo afora. Tenho alfinetes sinalizando os países por onde já deixei marcas dos pés. E de onde trouxe aprendizado, memórias para escrever e outras para esquecer; fotos que celebram a natureza e sua devastadora força em manter o que lhe é de direito e que o homem, reiteradamente, tenta lhe usurpar. Também deixo recordações a quem lá encontro – livros e fotos.

Na fotografia encontrei uma forma de dialogar comigo e com o outro. Tanto o que fascina quanto o que desconforta, recebe o meu click. As várias leituras que cada uma das imagens que assino têm o intuito de transformar o senso comum, imagem congelada, em movimento infindo. Minha câmera e lente procuram por histórias, para conhecer ou para contar. O que importa, de fato, é buscar e promover sentido e significado nos momentos em que olhares ímpares são depositados nela – na fotografia.

Escrever foi uma forma de colocar no papel, além das fotos, meus gritos e silêncios frente a complexidade do viver, do existir. Escrevo porque gosto de, ao juntar as letras, navegar por águas invisíveis a olhares alheios, buscar compreensão sobre o que me cerca, colocar a dor e o que me corrói, desenhar a beleza e a amargura de amar, pintar a luz e a sombra da figura humana. Algo em mim pede passagem e, ao insistir em virar texto, preciso – escrever.

O castigo ainda me acompanha, saibam. Penso que por minha educação cristã ou mero cacoete da infância. Nas águas do palácio em que minha alma habita, o mundo se reflete, mudo ou falante, iluminado ou sombrio. Há momentos em que, ao me sentir, desconheço se estou chegando ou partindo, construindo ou em fuga, tipo fotografias que, em dupla exposição, se transformam em outra coisa – arte digital. Luzes filtradas pelas janelas desse palácio, tocam minha pele como um milagre possível. O milagre de acreditar em um mundo melhor com alguma garantia de dignidade a todo ser vivo em sua travessia, descortinando a ideia de que é possível vivenciar um pouco de paz além dele – o castigo.

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