Quando coloco à prova minha vulnerabilidade? Eu diria que a cada amanhecer. Mas, evidentemente, existem dias ou situações em que essa sensação escorre pelo corpo como lava de vulcão, incandescente.
Dizem sermos, os humanos, seres em que a empatia precisa ser aprendida, processo em desenvolvimento de acordo com as circunstâncias as quais somos expostos. Entretanto, leio sobre a liquidez de tudo, inclusive do amor que se dilui e impacta, também, na capacidade de sentirmos a dor alheia. Com esse conflito gerado pela liquidez da vida moderna, qual a identidade que queremos manter e qual gostaríamos que as próximas gerações construíssem? Como atuar para que a empatia continue a respirar? Perguntas que precisamos fazer e assumir as respostas.
Decidi, há um bom tempo, que uma forma de manter a empatia seria exercitar a conexão direta, a escuta ativa com quem precisa de ajuda e apoio. Em minhas viagens fotográficas, faço trabalho voluntário com vários públicos, entre os quais estão as crianças. Com elas diversifico o local de atendimento entre escolas públicas ou orfanatos.
O trabalho consiste em cuidar delas no dia a dia. Auxiliá-las nas atividades escolares, ensinar jogos, brincar, contar histórias, cuidar da alimentação e de seu vestuário, orientar as práticas de higiene e, principalmente, abraçar e beijar todas, muitas vezes ao longo da jornada. Os pequenos seres arrebatam minhas lágrimas tanto quanto esperança, pois percebo em seus olhares e sorrisos infantis, sinais de resistência.
Eles resistem à indiferença que o mundo lhes oferece, a ausência das famílias, aos dedos que os indicam como necessitados, abandonados, desprovidos, à margem. Resistem aos adeuses de amiguinhos, que com alguma sorte, ou retornam para casas de familiares, são adotados ou viajam para o além. Resistem a coisas que guardam em segredo ou fingem esquecer, pois a mente é a primeira e mais forte aliada à vontade de estar vivo. Resistem a escassez de amor em suas vidas.
Ao retornar dessas incursões humanitárias, diminuo pertences em armários e gavetas, mantendo aquilo que ilumina boas recordações. Após a separação e higienização, faço doação de todos os itens retirados. Desprovida de intenções conscientes, ou não, modifico: dieta, jeito de vestir, entretenimentos, leituras, visão sobre o mundo e o ser humano. Me revolvo tanto quanto os oceanos.
O contato com essas meninas e meninos me ensina o quão pouco precisamos para tornar a nossa existência mais plena e com sentido. As crianças com as quais convivi possuem pouquíssimos brinquedos, deficiência alimentar, saúde frágil, dificuldades em sobreviver, mas a maior sede delas é de afeto, de horizontes, de acolhimento. Sede de empatia.
A infância, quando atravessa a sombra, não perde sua luz. Ela a reinventa.

