Fôlego

A palavra, em situações diversas, pode ser comparada a uma moeda, você não acha? No mínimo, tem duas faces. Explico, ou melhor, exemplifico. Um amigo envia mensagem de aniversário, com muitos corações e dedica – a você, bruxa de todos os dias! Aqui penso existir um sentido afetivo na palavra bruxa. Outra mensagem, de quem nunca nutriu ou não nutre, em determinado momento, qualquer simpatia por você, inicia com – a você, bruxa de todos os dias! Improvável que algum coração, de qualquer cor, acompanhe essa frase, certo?

Sinto o fôlego me faltar em diferentes situações. Lembro que, entre Ho Chi Minh e a cidade de Cu Chi, famosa pelos complexos túneis construídos – estrategicamente – na Guerra do Vietnã, a densa floresta apresentada no trajeto. Suas imensas árvores renascidas após 50 anos do lançamento das bombas americanas no local, me tirou o fôlego. Da mesma forma, ao chegar no mirante que permite a visualização da Cratera de Ngorongoro, planície circular de quase 19 Km que, em algum momento da existência do Planeta Terra, foi base para um vulcão quase equivalente ao Monte Kilimanjaro, não somente me deixou sem ar como me fez prantear. E os passeios de balão sobre a savana e os bosques do Serengeti e do Massai Mara, com a beleza da flora em diversos tons esverdeados e dos grupos de animais – girafas, elefantes, rinocerontes, zebras, gnus, leões, hienas, em seus habitats, em plena liberdade? Quase morri ao perder a respiração frente a esses cenários!

Inesquecível a entrada, desde o fechar dos portões do aeroporto até a chegada ao lodge, na capital de Madagascar, Antananarivo. No hall do hotel, pensei em chamar um médico, tal a opressão e a falta de ar sentidas frente a tanta miséria, sujeira e poluição observada no percurso. Entretanto, a beleza natural encontrada fora do perímetro dessa cidade foi a face da moeda que possibilitou uma bela oxigenação aos meus pulmões. Avistar a degradação dos rios no interior do Nepal pelo lixo jogado por turistas e população local, com abundância de elementos plásticos não biodegradáveis, foi outra ocasião de tirar o fôlego e, momentaneamente, a esperança na humanidade. Mas, se há algo que me retira não só o ar, mas a crença no progresso, é observar a invasão do concreto e vidro substituindo árvores, pássaros e rios, transformando a paisagem onde o verde, quase ou totalmente extinto, deveria ser mantido.

Estética de imponentes prédios nas cidades que circulam em fotografias, apresenta espaços públicos frios, desconectados com a natureza. Embora a iluminação interna, vista através das janelas envidraçadas, indique a presença de vida, questiono o quão afastados estes seres podem estar de suas origens, de sentir a energia que invade o corpo humano ao ter os pés e mãos em contato direto com a terra. De qual valia eles atribuem ao oxigênio liberado pelas árvores e ao papel fundamental delas na regulação do clima, do controle da erosão do solo e do fornecimento de alimentos e acolhimento para a fauna? O trânsito desenfreado nas rodovias urbanas, gerando um ar sufocante e insuportável de inspirar, revelam a dependência de combustíveis fósseis no nosso ir e vir. Cenários como esses fragilizam minha capacidade pulmonar. Mas, longe de nutrir antagonismos contra o desenvolvimento, carrego a utopia de que ele mantenha constante diálogo com a natureza.

Tenho em uma das paredes de minha casa, treliça de madeira com flores de Jasmim dos Poetas e de Jasmim de Madagascar. Aqui, em meio a essa vegetação, seis pares do pássaro, bico-de-lacre-de-santa-helena, reproduziram no último verão, mais de 30 filhotes. A cada ninhada, o revoar dessas aves alimentando e acompanhando os primeiros voos de seus pimpolhos, foi de tirar o fôlego. E colocar risos no meu semblante.

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